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Sem motivos para comemorar

A presidente da União nacional dos Estudantes (UNE) e ex-candidata a prefeito de Santos, Carina Vitral, comenta sobre os cem primeiros dias do segundo governo do prefeito Paulo Alexandre Barbosa.

Por Carina Vitral (*)

Nos primeiros 100 dias de gestão do prefeito Paulo Alexandre Barbosa pode-se observar nitidamente uma clara dissociação entre o discurso eleitoral e suas ações e atitudes à frente da prefeitura de Santos. Ambos caminham de forma paralela e, por mais que a administração procure demonstrar o contrário, a população sente diariamente esse descompasso.

Proponho voltar a um passado não muito distante. Mais precisamente em outubro de 2016. Durante a campanha eleitoral, que o levou ao segundo mandato, o prefeito cansou de assegurar que as contas públicas estavam em ordem e que sua administração era um exemplo de austeridade e equilíbrio. No entanto, não foi isso que percebemos logo que tomou posse.

Hoje, o discurso mudou. Segundo o próprio prefeito, “enfrentamos uma crise econômica e no Poder Público não é diferente”. Jogar a responsabilidade sobre os ombros do difícil panorama nacional é uma prática fácil e comum. Qualquer um pode fazer isso. Contudo, a competência de um administrador se passa, necessariamente, por desenvolver alternativas que superem esse quadro pouco animador. Além disso, Santos, historicamente, é uma cidade dotada de uma arrecadação bem significativa. Então, surge o questionamento: o que aconteceu no primeiro mandato para que os cofres públicos ficassem tão vazios, fato mascarado durante a campanha de 2016?

O choque de realidade veio logo no segundo dia do ano. Um incêndio de grandes proporções atingiu, de forma implacável, 318 famílias moradoras da Zona Noroeste. À época, o cadastramento para o auxílio das famílias, por parte da prefeitura, segundo os próprios moradores, demorou muito. A Zona Noroeste, aliás, é costumeiramente alvo do descaso dessa administração. Além do incêndio, a região continua sofrendo com o crônico problema das enchentes, que faz moradores perderem todos os seus bens para a chuva.

Em seguida, o prefeito surgiu com a decisão arbitrária de aumentar a passagem dos ônibus para R$ 3,85, contrariando mais uma de suas promessas de campanha, na qual afirmou que não reajustaria as tarifas do transporte público, caracterizando um autêntico estelionato eleitoral. A princípio, a decisão foi suspensa por liminar, que foi cassada, e o novo valor está em vigor.

As mazelas não param por aí. Denúncias de nepotismo e o eterno jogo de palavras que cerca o Hospital dos Estivadores, que inaugura, mas “a portas fechadas”, também marcaram os primeiros 100 dias de gestão do prefeito. O caos na saúde não para por aí. Apenas para citar alguns exemplos, em janeiro, parte do teto do Hospital da Zona Noroeste desabou. Felizmente, não houve feridos, mas o Sindicato dos Servidores Públicos denunciou que os problemas na instalação existem há, pelo menos, dois anos. Cerca de um mês depois, o mesmo Complexo Hospitalar ficou fechado aos pacientes, devido à falta de funcionários. As pessoas que necessitavam de atendimento foram impedidas de ingressar nas dependências do hospital pela Guarda Municipal.

Entretanto, a cereja do bolo, sem dúvida, é a histórica greve dos servidores municipais, a mais longa registrada até hoje, superando a de 1995, que durou 28 dias. O episódio, além de ter sido mal conduzido pela prefeitura desde seu início, mostrou claramente a total falta de disponibilidade da administração em manter um diálogo saudável e negociar diante das justas reivindicações do quadro de funcionários públicos. No início do processo, a oferta de 0% de reajuste beirou a explícita falta de respeito, quando os servidores davam demonstrações de aceitar negociar o índice que refletia somente as perdas salariais.

A paralisação dos trabalhadores, sem dúvida, se arrastou em consequência da intransigência do prefeito. A categoria dos servidores municipais, além de ter seu salário reduzido, deverá ter a remuneração cortada por conta dos dias parados. Definitivamente, não é atitude de um prefeito que respeita os trabalhadores.

Amparado por uma maioria de vereadores não comprometidos com a vontade da população e por meio de um trâmite regimental não muito elogiável, a prefeitura conseguiu aprovar na Câmara seus projetos de lei, que preveem abonos e reposições abaixo da inflação, de apenas 2% ao mês. Apesar disso, ficou notória a perda de apoio político na Casa, pois seis vereadores de sua base aliada votaram contra as propostas do prefeito. Em síntese, está cada vez mais difícil endossar essa administração.

Diante desse cenário, não acho que a população santista tenha motivos para comemorar os 100 primeiros dias de administração municipal. Durante a campanha de 2016, o slogan da coligação encabeçada por Paulo Alexandre era “Santos Pra Frente”. Mas, infelizmente, a verdade demonstra o contrário. Esse modelo de gestão, que atua de costas para a população mais necessitada e que relega as questões sociais a planos secundários, mostra um prematuro desgaste que se reflete na crise municipal, tanto financeira quanto de credibilidade.

(*) Carina Vitral é presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE)

 

 

 

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