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Minas no hip hop em perequê: um grito pelo fim da invisibilidade das mulheres

Cansadas de sofrer boicotes e não ter o devido espaço, a Frente Regional de Mulheres no Hip Hop Baixada Santista (FRMH2-BS) organizou o seu primeiro evento para mostrar que o Hip Hop também é das minas.

Por Victor do Instituto Procomum

“É um encontro colaborativo. Todas as artistas vieram de forma voluntária, inclusive de outras cidades. Temos 16 grafiteiras, da Baixada Santista, São Paulo e Campinas. Além de pintar, estamos reestruturando o espaço da Associaçao de Moradores” Jully Vasconcelos, uma das organizadoras do evento

Em um sábado quente de março saí de Santos em destino à Avenida Amazonas, rua travessa da Praia do Perequê, em Guarujá. Um daqueles destinos desconhecidos na “Pérola do Atlântico” e que sofre com os problemas de toda quebrada. O Guarujá não turístico, periférico e dos trabalhadores e trabalhadoras.

“O hip hop prega a união dentro do movimento. Isso que estamos trazendo. Esse é o primeiro evento de muitos. Vamos somar juntos dentro da comunidade. É encantador ver esse evento acontecendo, um sentimento que não consigo explicar. O Hip Hop para a gente é tudo. Um meio de transformação. De mudar a sociedade, uma oportunidade para os jovens. Quando você é periférico, você é ocultado”. Kelly Anselmo, moradora do Perequê, dançarina de break e militante do Hip Hop.

É difícil escrever sobre um movimento e gênero musical que marcou minha adolescência, mas que não faço parte ativamente. E mais difícil escrever sobre o movimento feminista. Sou homem, tenho meus privilégios e os reconheço. Por isso mesmo optei pelo relato em primeira pessoa. Para evidenciar essa dificuldade, que também se torna admiração quando minha solidariedade testemunha mulheres disputando um espaço que é delas, espalhando informação e produzindo arte e cultura com alta qualidade, coerência, luta e paixão.

“A gente foi parada pela Guarda Civil no Jabaquara (São Paulo) de forma bem truculenta e o policial ameaçou atirar em uma van que só tinha mulheres e crianças. Na hora já gritei: ‘Salve Mães de Maio’, que me representa também. Sempre massa estar na quebrada. É esse lugar que temos que estar”, NeneSurreal.

Mulheres fortes que estão dispostas a usar a arte como ferramenta emancipadora dentro e fora do hip hop. Contando histórias, dividindo emoções e sentimentos. Cantando, realizando, pintando, escrevendo e dançando.

Machismo dentro do Hip Hop
Resumidamente, o Hip Hop nasceu para acabar com a cultura de violência das gangs e lutar contra o preconceito sofrido pela população negra e dos guetos.

“O hip hop faz parte da nossa vida. A gente tem a consciência que deu oportunidade para várias mulecadinha da favela, mudou a vida deles. As minas têm que ser respeitadas, a gente sabe que tem machismo dentro do hip hop. Temos que quebrar esse preconceito. Faz parte do Mães de Maio também ocupar o Guarujá. Vários jovens foram assassinados aqui. Estamos aqui dizendo basta ao extermínio da nossa juventude, vamos respeitar as minas e as Mães de Maio”, Débora Maria da Silva.

Tenho a convicção de que o Hip Hop já salvou milhares de jovens e continua salvando todos os dias. Isso é inegável, mas neste sábado em que interviram por quase meio dia no Perequê, em uma ação contemplada pelo Circuito LABxS (Lab Santista), o que as participantes queriam evidenciar é que o movimento precisa dar mais espaço para as mulheres e esquecer de uma vez por todas a misoginia – seja nas letras, nas atitudes, no comportamento, nos gestos, nas piadas e comentários.

Convicção Negra – Hip Hop Militante. PretaLine (direita): “Para gente é importante. O nosso rap é feito para isso. Como mulher negra e LGBT, eu gosto de rap, mas quero ouvir as letras e sentir a necessidade feminina. Tem várias meninas no rap, desde os anos 80. Mas chegar aqui e poder cantar em um evento organizado e para mulheres é muito bom. Quem é a ala de frente da periferia é a gente. A mulher que tem o filho e cuida dele, cuida da casa, trabalha, refaz o barraco depois da enchente. É muito bom estar aqui na periferia e poder dizer: não aceitem a agressão, lutem contra o preconceito às lésbicas e bissexuais”. Maria Pessoa (esquerda): “O Hip Hop é um meio machista. Quem protagoniza sempre foram os homens. Hoje as coisas estão mudando, as mulheres estão se impondo. Não é que não existiam, é que são silenciadas em todos os espaços. Hoje é interessante estar aqui até para ganhar os homens. A gente precisa dialogar com os homens da classe trabalhadora. Nossas músicas falam sobre isso, inclusive”.

O festival criado pelas minas quer evidenciar que um movimento emancipador não pode destratar as mulheres ou reproduzir preconceitos de nenhum tipo. E o que as inspira na militância da Frente Nacional do Hip Hop pode cabe em uma frase: dar visibilidade às mulheres do Hip Hop.

Um resumo do evento

A jornada das meninas que vinham de São Paulo para o evento já começou difícil. A van que levava parte das artistas sofreu um enquadro truculento da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo.

“O grafiti tem que estar na quebrada. Ele veio da quebrada e é na periferia que faz sentido e a diferença. Foi uma satisfação estar aqui hoje com as manas. Satisfação estar com as que já conheço, conhecer novas parceiras. É isso: as mulheres juntas e se fortalecendo”, V Nuvem.

Elas tiveram que abandonar o veículo e descer a serra de ônibus. Vencendo os obstáculos, às 17h os muros da Associação já estavam praticamente todos grafitados e os shows começaram.

Depois, rolou uma roda de conversa sobre a importância do feminismo meio do Hip Hop e enfrentamento às violências com Jully Vasconcelos (FRMH2-BS/NELCA/MDV-BS), Lunna Rabetti (FNMH2) e Natasha Avital (MDV-BS/Contra Maré/Bi-Sides) e “Direito e Discriminações Sociais – Raça, Gênero e Classe” com Semiramis (OAB-GJÁ) e Débora (Mães de Maio), irmã Dolores (CDH) e Paulo Ramos (Direito-UNIESP).

Vale lembrar também que a participação das mulheres no hip hop brasileiro não é recente. Durante o evento, foi lembrado nomes como Sweet Lee e Dina Di, e foi feita uma homenagem à Sharylaine, pioneira no gênero, que não pode ir ao evento por problemas de transporte. Artistas que há décadas produzem raps e lutam por mais espaço para as mulheres no gênero.

Seria injusto destacar apenas uma apresentação ou trabalho. Portanto, vamos publicar a lista de todas as artistas que participaram do evento:

MC`s.

Bia Doxum
Souto MC
Mina Su
Andréia MF
Lunna Rabetti
Brisa De La Cordillera
Natt Maat
Sharylaine
Convicção Negra – Hip Hop Militante
Kevin
Brunão Mente Sagaz e Wufologos
Lula Man

– DJ’S:

DJ Niely
SouLaba
Litha Afrontite

– GRAFFITI (live paint):

AForca
Fixxa – Uma Arte Contemporânea feita de Povo para Povo
NeneSurreal
DRILL DRIX Itanhaém artes
Salubre
V
Gabi Bruce
Frësz
Thata
S.Urbana
Niu
Nus
Madô
Luna
Ada
FRTS
Az Brasil
Mariana Salomão
Nat
Bia
Santa Monica = Monica A. Ancapii
Tiquinho (SRB)
Jhoni morgado art urban official

 

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