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ABC paulista mantém ruas que homenageiam ditadores

Professora da UFABC defende que nomes de logradouros não sejam alterados mantendo viva a memória para que os erros não se repitam

Por Renan Fonseca, do ABCD Maior

Humberto de Alencar Castelo Branco foi o primeiro militar presidente do regime ditatorial brasileiro. O golpe orquestrado pelos militares aconteceu em 31 de março de 1964. Naquela época, diversas ruas, avenidas e praças foram batizadas com nomes e datas que remetem aos anos de tortura. Porém, até hoje esses logradouros não foram alterados, mantendo as “homenagens”.

As prefeituras do ABC paulista não sabem mensurar quantas vias fazem menção à ditadura. Nenhuma administração também pretende fazer alterações nos nomes. Mudar um logradouro é uma tarefa que cabe às câmaras legislativas, que também não têm nenhum projeto específico sobre o assunto. Porém, alterar o nome de uma via é um processo que pode causar problemas para moradores e empresas.

Apenas Mauá informou as vias batizadas pela ditadura. Em nota, a prefeitura informou que “Mauá tem apenas a Avenida Presidente Castello Branco, no Jardim Zaíra, e a rua Presidente Arthur da Costa e Silva, no Parque São Vicente.”

Apesar de não ter projeto para alterar as vias públicas, a administração informou ainda que “em contrapartida, há número muito maior de referências a militantes que lutaram contra o regime ditatorial em logradouros e escolas municipais.”

A tortura inclusive está estampada em diversas ruas da Vila Mussoline, em São Bernardo. Benito Mussolini foi um ditador fascista italiano. O militar ficou conhecido por presidir o país com punhos de aço. Frases fascistas como “a liberdade é um cadáver putrefato” eram ditas em diversos discursos do estadista.

“Se uma cidade altera o nome de um endereço, as empresas situadas naquele local têm de alterar todas as documentações, além de ter que acionar fornecedores e clientes”, comentou a professora de Engenharia Ambiental e Urbana da Universidade Federal do ABC (UFABC), Sílvia Helena Facciolla Passarelli. “Mas as pessoas não podem esquecer as atrocidades que foram cometidas durante a ditadura militar no Brasil. Eu não queria morar em uma rua com nome de Costa Silva. Porém, a memória tem de manter viva para que esses erros não se repitam”, comentou a professora Sílvia.

A especialista lembra que os logradouros são importantes em caso de envio de encomendas, por exemplo. “A mudança tem de acontecer não somente na cidade, mas em todo o território. Imagina como seria para uma pessoa de outro estado encontrar um endereço que foi recentemente alterado”, explicou. “Lembrar o ruim é bom. O que as prefeituras podem fazer, por exemplo, em caso de alteração, é fazer um diálogo com a população lembrando os erros e assassinatos cometidos pelos torturadores. O que não é bom para a história é perder a memória”, sustentou Sílvia.

Comissão da verdade

Em Diadema, a Câmara dos Vereadores interpôs uma Comissão da Verdade para apurar os crimes cometidos pelos torturadores. Essa comissão, que aconteceu em 2014, também tem proposta de alterar logradouros e nomes de espaços públicos batizados com militares ditadores. “É um trabalho cronológico. Ouvimos muitas famílias de pessoas que foram torturadas. Além disso, temos leis na Casa que impedem que novos endereços tenham conexão com a ditadura”, comentou a vereadora Lilian Cabrera (PT), que presidiu a comissão à época.

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