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Uma São Paulo sem memória: quem lucra?

Julho de 1917. Uma ataque de cavalaria que foi lançada contra operários que protestavam no Brás resultou na morte do jovem anarquista espanhol José Martinez, executado a sangue frio. Seu funeral atraiu uma multidão que atravessou a cidade acompanhando o corpo até o cemitério do Araçá. Indignados, entraram em greve e logo foram seguidos por outras fábricas e bairros operários. Três dias depois mais de 70 mil trabalhadores já haviam aderido à greve.

Julho de 1924
. Uma das baterias do governo federal se abriga na fortaleza do Carmo, no alto da colina que dava vista para a várzea do rio Tamanduateí. O objetivo era atingir o quartel-general dos “rebeldes”, localizado na avenida Tiradentes. Estes reagiam atirando em direção ao Pátio do Colégio, onde ficava o Palácio do governo estadual, a Secretaria da Justiça e a Central de Polícia.

Palacete Santa Helena. Inaugurado em 1925, o imponente prédio era o símbolo de uma São Paulo que deixava de ser colonial e passava por um processo de industrialização. A partir de 1935, o palacete abrigou um dos movimentos mais significativos da história das artes plásticas de São Paulo: os “artistas proletários”, nas palavras do escritor modernista Mário de Andrade. Da janela, eles avistavam a dinâmica do centro e encontravam inspiração para retratar em suas telas a vida operária. O Palacete Santa Helena ruiu pelo abandono e cedeu ante o “progresso”. Foi destruído em 1971 para que se construísse a estação central do Metrô. Hoje, quem passa pela praça não encontram nenhum vestígio do antigo palacete.

Em diversos lugares do mundo histórias como essas atrairiam turistas, motivariam visitas guiadas movidas a contos e histórias que explicariam a história de São Paulo. Construções como o Palacete Santa Helena seriam preservadas, o direito à memória do operário paulistano reconhecido. Mas não aqui.

Diante desses e outros absurdos, é comum ouvir o coro de que “São Paulo não tem memória”. Errado. São Paulo tem memória. Mas também foi alvo de um poder público omisso por décadas, e um projeto de poder econômico que perdurou séculos baseado na ocultação da memória popular paulistana. A memória e a identificação da população com a cidade sempre foram evitadas. O lugar do povo nunca foi o centro.

Por essas e outras, intervenções urbanas como a abertura do Mirante da 9 de Julho, que será nesse domingo (23), antes contemplado pelo Belvedere Trianon (Não, o MASP não existia. Clique aqui para conhecer!) são tão importantes para São Paulo. A reconquista do centro pela população paulistana é um grande passo para que possamos nos conhecer melhor enquanto cidade, enquanto povo. Conhecer a cidade que habitamos é entender pelo o que lutamos diariamente. O direito à memória, o direito à cidade.

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