Artistas de rua ocupam calçadas da Av. Paulista com mais tranquilidade após decreto

Pouco mais de um ano da assinatura do decreto que regulamenta a lei 15.776/2013, pelo prefeito Fernando Haddad (PT), que garante a liberdade para a apresentação de artistas de rua na cidade, fomos à Avenida Paulista, reduto de músicos e performers. A ideia era conversar com alguns deles e saber como está a ocupação da arte urbana nesse que é um dos lugares mais privilegiados na capital, por onde passa uma plateia enorme e rotativa diariamente.

O paulistano Paulo Henrique de Jesus foi o primeiro que encontramos na Paulista, em frente ao Conjunto Nacional, e que nos chamou atenção por causa do instrumento inusitado o qual tocava sentado na calçada. Um didjeridu, de origem aborígene australiano. Com ele, o irlandês Tommy Headon e seu contrabaixo produziam um som psicodélico que inevitavelmente chamava atenção das pessoas. “Estamos tocando juntos há um ano. Eu já tocava solo na Paulista e ele também tocava em outra banda de rua. Um dia cheguei e ele estava tocando e eu toquei junto. Começou a dar certo”, conta Paulo.

Paulo Henrique
Paulo Hnerique e seu didjeridu

O músico comenta que não teve a experiência de tocar nas ruas de São Paulo durante a gestão do prefeito Gilberto Kassab (PSD), quando diversas restrições e proibições começaram a vigorar na capital paulista. Naquela época, os artistas de rua eram incluídos no critério comercial como o de vendedores ambulantes. “Não cheguei a tocar nessa época da repressão, então da minha parte nunca houve nada. Acredito que a rua não tem dono”, diz. Para Paulo, tocar na rua “é muito legal” pela experiência de apresentar um instrumento novo para tantas pessoas com estilos diferentes, além de ser um meio de sustento. “Vivo disso de tocar na rua, dou aulas de música e ensino a fazer esse instrumento [didjeridu].”

O estatuísta Robson Nascimento, que trabalha há seis anos com arte urbana, afirma que hoje pode apresentar sua performance com mais tranquilidade na cidade de São Paulo, porém com algumas regras. “Hoje tem alguns pontos específicos que não podemos mais nos apresentar como na rua 25 de março.” Para ele, essas regras devem existir para a boa convivência de todos. “Existem várias regras para estarmos na rua hoje, entre artistas e entre o público. Não posso atrapalhar o fluxo das pessoas”, relata.

Robson nascimento
Robson Nascimento: estatuísta há seis anos

Ao som de Elvis Presley, que vinha da performance de outro artista que se apresentava ao lado, o estatuísta nos revela que mora no ABC e que leva sua arte para todos os lugares, preferindo os municípios menores, no interior. “Nas grandes metrópoles é mais fácil encontrar esse artista de rua, um músico, um palhaço. No interior as pessoas são mais carentes disso”. Para ele, não tem porque inibir esse tipo de expressão. “O governo tem que apoiar a arte de rua porque ela é mundial, o circo, a música, o estatuísmo que é uma arte grega, são universais”, diz Robson. E completa: “Hoje em dia está mais tranquilo aqui na capital, mas em outros municípios temos que nos preocupar com a guarda civil, por exemplo. Você tem que explicar para a fiscalização que não é comércio, que não somos camelôs, ambulantes. Estamos expondo nossa arte e as pessoas contribuem com o que querem. E o público de coração aberto para contribuir com o que elas querem e o que elas podem”.

Mais alguns passos para frente nos deparamos com Márcio Aguiar, o Elvis da Paulista. Para ele que se apresenta na região desde 2010, a avenida é um show business aberto. “Sou da época que tinham poucas pessoas tocando na rua, porque existia uma lei que expulsava as pessoas. Se você não saísse, a pressão ficava maior até chegarem os oficiais”, lembra. Segundo Márcio, há cinco anos, se alguém aparecesse na paulista com um violão “era pior do que aparecer com uma metralhadora”. “A arte aqui era caso de polícia”, afirma.

O Elvis da Paulista comenta ainda que já viu muito artista de rua passar por humilhações, ser preso e até torturado. “Principalmente a humilhação moral, porque a prefeitura daquela época e de outros mandatos nos tratava como bandidos”, relata. Após esses episódios, o artista conta que muitos resolveram se organizar e criar uma associação. “Fizemos manifestações, perdemos instâncias, até que a criamos. Agora temos uma associação na qual brigamos e lutamos pelos nossos direitos, a Associação dos Artistas de Rua”. Neste momento ele abre uma caderneta com informações gerais como os direitos e deveres do artista de rua.

Arte de ruaA cartilha, intitulada “Arte na Rua – um guia ilustrado sobre a legislação da cidade de São Paulo para artistas de rua”, é um livreto com 32 páginas lançado neste ano, em março, pela Secretaria Municipal de Cultura, elaborado em parceria com o MAR – Movimento Artistas de Rua. Nela é possível ter acesso às novas regras, saber quais são as boas práticas quanto ao som e o uso do espaço como respeitar, por exemplo, as áreas onde se concentram hospitais e escolas e dicas de convivência e compartilhamento de espaços públicos pelos próprios artistas.

Consciente de seus direitos e deveres, Márcio revela: “Existem as regras. Por exemplo, você não pode tocar na frente de hospital, aí o cara vai lá e toca. Tem muito artista que pisa na bola. Mas tem muita gente consciente”. E completa: “Esse negócio de artista de rua é relativo. Enquanto existir poder público, comércio e artista de rua, existirão as polêmicas. Estamos vivendo um momento de paz, mas amanhã vai voltar o inferno de novo”.

Imagens: Jeferson Stader

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