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Paralisar ciclovias é uma decisão “arbitrária e irresponsável”, afirma especialista

Meli Malatesta, urbanista especialista em ciclovias que trabalhou por mais de 20 anos na CET, garante que, ao contrário do que diz o MP, houve, sim, planejamento para a construção das vias para bicicletas; prefeitura afirmou que vai enviar os estudos à Justiça para retomar as obras 

Por Ivan Longo 

Ciclistas fecharam o trânsito da Paulista em protesto contra a decisão da Justiça. (Foto: reprodução/Facebook)
Ciclistas fecharam o trânsito da Paulista em protesto contra a decisão da Justiça (Foto: Reprodução/Facebook)

Ainda que as ciclovias que vêm sendo implantadas pela gestão de Fernando Haddad (PT) sejam aprovadas pela maior parte da população, há aqueles ainda que insistem em buscar argumentos para desqualificar a medida. Uma dessas pessoas é a promotora Camila Mansour Magalhães da Silveira, que teve o seu pedido de interromper as obras de ciclovias em andamento acatado pela Justiça nesta quinta-feira (19).

A decisão em caráter liminar expedida pela 5ª Vara da Fazenda Pública impede que a prefeitura dê continuidade à construção das ciclovias em andamento, sob o argumento de que não foram feitos planejamentos e estudos necessários para a implantação da malha cicloviária, que hoje ultrapassa os 200 km na capital. O objetivo da atual gestão é chegar aos 400 km.

A promotora Camila Mansour também havia pedido a paralisação da obra da ciclovia da avenida Paulista, mas essa parte foi rejeitada pela Justiça, que entendeu que houve, nesse caso, estudo prévio.

A prefeitura, no entanto, garante que há, sim, estudo e planejamento para a construção das vias e prometeu enviá-los à Justiça para, assim, retomar as obras.

“A Procuradoria Geral do Município irá apresentar todos os dados e relatórios que se fazem necessários para esclarecer a questão. Com isso, a Prefeitura espera em breve poder retomar as obras e ajustes viários para dar continuidade ao projeto cicloviário da cidade, um marco importante no desenvolvimento da mobilidade de São Paulo”, disse em nota.

Decisão arbitrária 

Meli Malatesta entende do assunto. Além de ter trabalhado por mais de 20 anos na Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) na área de planejamento, ela é urbanista e doutorada em mobilidade cicloviária. Questionada sobre como avalia a decisão da Justiça, Meli foi direta.     

“Entendo que não foi uma decisão puramente técnica, uma vez que os argumentos utilizados pela promotoria podem ser considerados primários e fáceis de serem derrubados, inclusive pelas várias ciclovias já implantadas na cidade antes da gestão do Haddad com situação urbana similar, como, por exemplo, a ciclovia Faria Lima, Radial Leste, Rio Pinheiros, ciclofaixa de Moema”, afirmou.

Para a urbanista, não há cabimento argumentar que não houve planejamento para implantar as ciclovias, uma vez que ela mesma fez parte de inúmeros projetos cicloviários elaborados pelas prefeituras em São Paulo que, em grande parte, só começaram a sair do papel agora.

“Houve planejamento, sim. Posso afirmar com tranquilidade que, antes de sair da CET, onde coordenava o Departamento de Planejamento Cicloviário, listei no final de 2012 mais de 600 km de estudos de planejamento e projetos de rede cicloviária oriundos do Plano Diretor de 2012,novas avenidas e eixos de transporte, corredores de ônibus, todas elas em atendimento à Lei Municipal de 2009, que obriga a cidade a estruturar uma rede cicloviária em toda nova avenida ou intervenção de qualquer natureza em avenida existente”, revelou.

Outro argumento utilizado pela promotoria é de que as vias para bikes estão esburacadas, com tinta desbotada e trechos sobre a calçada, o que, para ela, oferece risco a pedestres, motoristas e ciclistas.

Meli rebate. “Com este argumento, será necessário interditar toda e qualquer via que tenha algum tipo de buraco para o tráfego motorizado também.  Quanto aos pedestres, a argumentação é no mínimo cínica, pois o que mais se vê são calçadas esburacadas, invadidas por rampas de garagens  sem que o MPE tenha emitido algum parecer para a interdição de alguma delas”, completando ainda que esse tipo de atitude configura um “retrocesso” para a cidade.

“Enquanto a maioria das metrópoles já acordou para a realidade da mobiidade não motorizada como a mobilidade do futuro, aqui ainda se teima em fazer prevalecer  conceitos ultrapassados e que já se mostraram absolutamente fracassados”, analisou.

Como forma de protesto contra a decisão da Justiça, centenas de ciclistas fizeram uma pedalada na noite desta quinta-feira (19) e pararam o trânsito na avenida Paulista. Enquanto isso, diversas ONGs e entidades ligadas à mobilidade urbana estão se articulando para derrubar a medida.

Foto de capa: Secom 

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