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“Essa vida não é pra ninguém”

Programas garantem dignidade à população em situação de rua; no interior, centros de referência oferecem apoio e cursos buscando a melhora da autoestima e inclusão. Conheça a história do bragantino Luiz Barbosa

Por Aline Campos | Foto capa: Divio Gomes

A rua é pública, todo cidadão tem direito de estar nela. Porém, este conceito se altera quando a sociedade se depara com aqueles que decidem ou são forçados a morar na rua. Desde 2009, o Brasil conta com o decreto nº 7.053, de 23 de dezembro daquele ano, que instituiu a Política Nacional para a População em Situação de Rua. Antes chamados de mendigos, trecheiros ou até mesmo o vulgo ‘vagabundo’, com a criação do decreto o objetivo é que todos entendam que em primeiro lugar estamos falando de pessoas.

Como princípios estabelecidos na Política Nacional, encontram-se, além de equidade e igualdade, respeito à dignidade, direito a convivência familiar e comunitária, valorização e respeito à vida e à cidadania, atendimento humanizado e universalizado e respeito às condições sociais e diferenças de origem. Porém, apesar disso estar claro na teoria, a prática continua sendo outra. Em geral, a sociedade fecha os olhos indiferente à situação. Mas existem diversas iniciativas do poder público – muitas vezes invisíveis – para atender esses cidadãos.

Na capital de São Paulo, dos seus quase 12 milhões de moradores, cerca de 15 mil pessoas viviam nas ruas, segundo o Censo da população em situação de rua, realizado em 2011. Mais da metade, na zona central. No interior paulista, também há uma expressiva população em situação de rua vivendo sobretudo nas áreas centrais. Segundo o secretário de Ação e Desenvolvimento Social de Bragança Paulista, Marcos Roberto dos Santos, isso ocorre principalmente ao fator emocional. “O fluxo de pessoas nesses grandes centros facilita a arrecadação deles, seja para uso de álcool, drogas, ou mesmo pra comer. Por isso eles estão sempre em lugares de grande fluxo”, diz. Quanto aos números, há uma diferença considerável nas cidades interioranas. Em São José dos Campos, a média é de 150 pessoas em situação de rua, e em Bragança, por volta de 80.

Barbosa
Barbosa é atendido no Centro Pop de Bragança Paulista, inaugurado em agosto de 2014 (Foto: Aline Campos)

Os motivos que levam as pessoas a procurarem as ruas variam. Para Luiz Carlos Donizeti Barbosa, que se tornou uma pessoa em situação de rua há aproximadamente três meses, a razão para sair de casa foram desavenças familiares. Ele já possuía problemas com o álcool e após a perda dos pais, passou a depender dos familiares. Nesse momento, a convivência se dificultou. Foi internado por nove meses em uma clínica para reabilitação, porém, quando voltou para a casa de um dos irmãos, situações geradas fizeram com que Barbosa tivesse que sair de lá. “Eu estava com um emprego bom. Ia ganhar R$1.200 pra fazer limpeza numa loja de móveis. Só que eu não tinha como pagar uma pensão de início, aí eu não sei se eu me desesperei. O que eu fiz? Acabei vindo pra rua.”

De acordo com a assistente social e coordenadora do Centro de Referência Especializada para a População em Situação de Rua (Centro Pop) de Bragança Paulista, Valdomina Ribeiro Moreira de Souza, mais conhecida por Lili, há aproximadamente 20 anos, o que levava as pessoas para a rua era a falta de moradia e falta de emprego. “Hoje, eu percebo que é o uso abusivo de substâncias psicoativas”, destaca.

Braços Abertos na Cracolândia
Na cidade de São Paulo, na região mais conhecida por Cracolândia, havia por volta de 750 pessoas, segundo o censo de 2011. Cumprindo o Decreto nº 7053, que orienta aos municípios que instituam políticas públicas de assistência à população em situação de rua, a Prefeitura de São Paulo, em janeiro de 2014, iniciou o programa São Paulo de Braços Abertos, no local. O programa consiste em retirar pessoas da situação de rua e da dependência das drogas por meio da restauração da dignidade, cidadania e identidade. Diversas secretarias municipais estão envolvidas, como Saúde; Direitos Humanos e Cidadania; Assistência e Desenvolvimento Social; Desenvolvimento, Trabalho e Empreendedorismo; e Segurança Urbana. O programa conta também com a sociedade civil organizada. Entre as ações, estão o cadastro dessas pessoas e encaminhamento para cinco hotéis na região – com quartos coletivos, porém dignos e limpos – orientação profissional, exames clínicos e aplicação de vacinas.

Um dos grandes diferenciais do programa é o estímulo do trabalho. Os cadastrados foram separados em grupos e contratados para serviço de varrição e zeladoria, com carga de 4 horas diárias, de 2 a 4 horas de qualificação profissional, e salários de R$15 por dia, sendo pagos semanalmente, além de ofertadas três refeições diárias. Cuidados médicos também são disponibilizados para ajudar a vencer a dependência da droga.

Após um ano de programa, houve redução de 80% no número de usuários de drogas que circulam na região. De acordo com a prefeitura, são 453 beneficiários, dos quais 343 estão empregados, 100 estão matriculados em cursos de capacitação profissional e 18 estão no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). Outros ainda estão em fase de inserção no mercado de trabalho.

Resgate da autoestima
No município de São José dos Campos, além da abordagem social, há uma equipe que oferece atividades para esta população, como cursos e oficinas que estimulam a autonomia e melhora de autoestima. Segundo o secretário de Desenvolvimento Social, Luiz Jacometti, também há um trabalho, em parceria com a secretaria de Saúde, voltado para aqueles que possuem algum tipo de dependência. “Temos hoje 190 vagas, que estão disponíveis para esse trabalho”, afirma Jacometti. Uma dessas vagas foi oferecida a um homem que permaneceu durante 32 anos consumindo substâncias psicoativas, ou seja, desde os seus 13 anos. “Dentro de um aspecto normal, ele teria todas as dificuldades de uma reinserção social, porque ele não viu sua adolescência, ele não viu a sua juventude, ele não teve a oportunidade de ter a sua vida dentro dos padrões que a sociedade entende como normal. Mas hoje, ele está ressocializado”, comemora Jacometti.

Centro Pop de Bragança Paulista oferece oficina de artesanato à população em situação de rua, além de encaminhamentos a serviços médicos e ao mercado de trabalho (Foto: Divio Gomes)
Centro Pop de Bragança Paulista oferece oficina de artesanato à população em situação de rua, além de encaminhamentos a serviços médicos e ao mercado de trabalho (Foto: Divio Gomes)

Entre as dificuldades enfrentadas pela pessoa em situação de rua, Barbosa, de Bragança, aponta a falta de dignidade como a pior delas. “É super desagradável. Horrível. Imagine você, que tem tudo, de repente, se vê sem nada. Sem ter como tomar um banho decentemente, alimentação, uma água. É horrível. O frio que passa. Sofrimento mesmo.”

Com relação ao vício, ele explica que bebia para ter coragem de enfrentar as situações e evitar a fome. “Tem uns galõezinhos, chamam de corote, custa R$2,50. Quem que não tem R$2,50 na rua? Você pede pra um, pede pra outro, por aí vai. De moedinha, em moedinha, aparece. Porque ninguém vai negar R$0,50. Vai ajuntando. Ai quando vê, conseguiu. E parece que o diabo ajuda porque pra bebida não falta. Mas pra um almoço, pra um lanche, ai não tem”, explica. Barbosa lembra que no dia em que foi abordado pela equipe da abordagem social de Bragança Paulista, estava alcoolizado. “O pessoal do Centro Pop fez abordagens, convidou eu pra estar conhecendo o programa e eu acabei vindo. Tava sem tomar banho há não lembro quantos dias. Acho que quatro dias, talvez. Fui acolhido. Eles tratam você com dignidade. Quem tá morando na rua, que que acontece, tá como se fosse um mendigo, tá mal vestido, sem tomar banho, sem fazer higiene pessoal. A primeira coisa que fazem é todo o processo de higienização. Toma banho, põe roupa limpa, aí vê o que a pessoa tá querendo. Tipo assim, ah, eu quero um trabalho. Então vamos ajudar, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo”, conta Barbosa.

Segundo Caíque Souza Santos, profissional de abordagem social do Centro Pop de Bragança Paulista, o maior índice de procura do Centro são por higiene pessoal, alimentação e passagens. “Dentro da proposta dos serviços oferecidos pelo Centro Pop, temos como prioridade a família. A gente conversa, vê qual o melhor caminho pra direcionar essa pessoa. Junto com ela, a gente faz uma formação em conjunto do indivíduo e se ele demonstrar interesse em, por exemplo, retornar ao convívio familiar, a gente concede também”, afirma Santos. Somente em 2014, o Centro Pop bragantino atendeu 398 pessoas, sendo que foi inaugurado no dia 15 de agosto do mesmo ano.

Dependência química é a maior dificuldade
Para o secretário de São José dos Campos, um dos principais problemas, como o enfrentado na capital paulista, é o uso do crack. “O crack na minha opinião é uma droga de extermínio. Ele, ao contrário de todas as outras drogas que nós conhecemos, em seis meses, leva à total degradação do ser humano. Isso é uma coisa que o poder público tem muita dificuldade de lidar e a população talvez não tenha o preparo pra enfrentar”, diz Jacometti.

O secretário Marcos Roberto dos Santos, de Bragança, também acredita que a maior é a dependência química. “É uma coisa que a pessoa tem que desejar sair daquilo. O próprio nome diz, ela depende daquilo. Fisicamente e emocionalmente. Pra mim, essa é a maior dificuldade”. A assistente social Lili concorda: “Cresceu muito o número da pessoa em situação de rua por conta da questão da dependência química. Ela se vincula com o espaço, a doença também não favorece que ela saia, ela naturaliza a coisa e acaba ficando. Se esse indivíduo fosse assistido em todos os seus direitos, com certeza ele estaria em um tratamento, teria sido educado pra que não se caísse na cidade.”

Santos destaca também a necessidade de conscientização da sociedade civil: “A população talvez não tenha uma ideia de realidade, desigualdade histórica, de enfrentamentos que a população de rua vive e acaba estigmatizando como simplesmente um vagabundo, mas não olha a lei nem pra reconhecer que existe tanto o fator social quanto o de saúde”.

Além da assistência do poder público à população de rua, cabe à sociedade civil refletir sobre o seu papel. Esta é uma situação de responsabilidade apenas do poder público ou é também  de toda a população? O que fica de certeza é que com apoio é possível resgatar a dignidade. Os exemplos mostram isso. “Eu quero, na verdade, passar uma borracha. Apagar isso da minha vida. Espero que eu consiga vencer e que as pessoas que tenham boa vontade, também consigam sair dessa vida, porque essa vida não é pra ninguém. Digna não é. Porque onde você não pode tomar um banho decentemente, não pode fazer sua higiene, uma alimentação, não é uma vida digna”, diz Barbosa. Na mesma tarde em que concedeu a entrevista para o SPressoSP, ele participou de uma entrevista de emprego.

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