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Adriano Diogo se diz magoado e anuncia saída da política institucional

Parlamentar reclama de falta de apoio do partido em sua campanha para deputado federal em 2014. Mesmo assim, faz questão de afirmar que é “petista e lulista”

Por Igor Carvalho

Adriano Diogo com a então candidata à Prefeitura de São Paulo, Luiza Erundina (Foto: Arquivo Pessoal)
Adriano Diogo com a então candidata à Prefeitura de São Paulo, Luiza Erundina (Foto: Arquivo Pessoal)

Nascido em 1949, filho de uma professora de origem italiana e um comerciante de ascendência italiana, Adriano Diogo abandonará, depois de 26 anos, a vida de parlamentar.

Petista de “quatro costados”, como gosta de dizer, ajudou a escrever a história do Partido dos Trabalhadores. Das bases da igreja católica, este geólogo da Moóca [zona leste de São Paulo] se tornou uma das principais lideranças petistas no estado e uma referência na luta pelos direitos humanos.

Em 1982, quando o ex-presidente Lula foi candidato ao governo de São Paulo, o PT elegeu cinco vereadores, momento em que Adriano Diogo começou a trabalhar com política institucional, integrando uma assessoria comum que atenderia ao grupo de parlamentares petistas na Câmara. “Era uma coisa maravilhosa, uma coisa linda, tanto é que dessa experiência surgiu a candidatura vencedora de Erundina à prefeitura de São Paulo.”

Em 2014, após quatro mandatos como vereador paulistano e outros três como deputado estadual, decidiu se candidatar a deputado federal. Desde o princípio da campanha, anunciou que, caso não fosse eleito, abandonaria a política institucional e não pleitearia mais nenhum cargo público por vias eleitorais.

Além da derrota nas urnas, o processo eleitoral trouxe, para Adriano Diogo, decepções com o PT. O deputado afirma que não teve apoio do partido para se candidatar e que ainda há dívidas das eleições que precisam ser saldadas. “A minha campanha só saiu pra rua porque alguns deputados estaduais me ajudaram, o partido não me ajudou em nada”, afirma o petista. “Estou muito triste. Estou muito mal, de verdade… Já fui preso. Era recém-casado e a repressão entrou em meu apartamento e roubou tudo. Sempre recomecei. Mas, olha, nunca passei por um momento tão difícil como esse, pelo abandono e pelo descaso”.

Mesmo assim, o deputado fez questão de afirmar que é “petista e lulista”. Confira a entrevista de Adriano Diogo na íntegra:

Em 1989, em evento com a prefeita, à época, Luiza Erundina e o então vereador Eduardo Suplicy (Foto: Arquivo pessoal)
Em 1989, em evento com a prefeita, à época, Luiza Erundina e o então vereador Eduardo Suplicy (Foto: Arquivo pessoal)

SPressoSP – Deputado, o senhor confirma que está saindo da política?

Adriano Diogo – Da política, nem depois da morte. A vida parlamentar e eleitoral que não vou disputar. Eleição no Brasil é uma loteria, não é consequência natural de um trabalho. Este sistema, sem uma reforma política, é um absurdo. O financiamento de campanha tem uma tal prevalência que chega a ser ofensivo, virou uma ação entre amigos. Antigamente, o trabalho era 70% e o financiamento era 30%. Agora, isso se inverteu completamente. Se você for mais à esquerda, aí fica completamente isolado, no gueto, como eu estou.

Acho que a luta parlamentar, além dessa prevalência do dinheiro, foi transformada em um lobysmo, a pergunta primeira é sempre “como você pode ser financiado em uma campanha?”. Representando o interesse de grupos econômicos. Sempre fui atuante politicamente, comecei minha política em 1963, na minha escola estadual na Moóca, aos 13 anos de idade. Em 1964, chega o golpe, de forma avassaladora. Saio da escola e vou estudar à noite, a barra estava pesadíssima, o grêmio estudantil e nosso jornal foram fechados. Em 1966, organizamos jornadas, passeatas enormes, enfrentando a repressão. Em 1969, depois da queda do Congresso, entro na USP para cursar Geologia, e no último ano do curso sou preso. Foi então que comecei a militar na Moóca, com os movimentos de moradia e com a igreja católica, até que chega a fundação do PT. Dei minha contribuição na luta parlamentar, sem nunca me afastar dos movimentos sociais. Não sai da política, fui “saído.”

SPressoSP – Já que o senhor abandona apenas a disputa eleitoral, como pretende ficar na política? Algum trabalho no partido?

Adriano Diogo –Meu mandato orgulhou o PT, a Comissão da Verdade de São Paulo deu a linha para a Comissão Nacional da Verdade, fizemos o melhor trabalho de todas as comissões. Enquanto a Comissão Nacional estava pensando se o mundo ia acabar porque os militares não iam deixar formar [a comissão], nós criamos a nossa. Agora estou fazendo essa CPI da violência nas universidades, que é meu último trabalho. Portanto, o PT deveria se orgulhar de mim, não virar as costas para mim. Estou indo em todos os lugares e perguntando se há algum espaço pra eu trabalhar, não quero ser autoridade, quero trabalhar e continuar na vida política, não na vida eleitoral, mas ninguém está nem me escutando.

Esse ano [2014], quem foi priorizado na lista do PT? O presidente do Corinthians [Andrés Sanchez], que nem petista é. Você sabe o que esse cara pensa? Não, ninguém sabe, mas ele era o prioritário. Eu pretendia usar, na eleição, o número do [José] Genoino, que é 1313, não me deram [o número foi utilizado pelo candidato Professor Fláudio]. Sobrou o 1368, do José Dirceu e do João Paulo Cunha. Fiquei com o 1368, ficou no imaginário o estigma do “mensalão”. Sempre quis ter a cara do PT, mas não tem condições, não tem interlocutor. Com quem você vai conversar hoje? Eu, que sou um petista de “quatro costados”, um petista à moda antiga, que acredita na luta, vai conversar com quem no partido? O PT deveria se orgulhar de mim. No episódio do Pinheirinho, em São José dos Campos, somente eu e o Marco Aurélio de Souza estivemos presentes, sou eu quem recebe aqui no gabinete e apura as denúncias de chacinas na periferia, meu mandato é a cara de como o povo imagina que deveria ser o PT. Não estou personalizando, sou avesso a isso.

Com José Dirceu e o senador Eduardo Suplicy, durante a campanha vitoriosa para deputado estadual, em 2002 (Foto: Arquivo pessoal)
Com José Dirceu e o senador Eduardo Suplicy, durante a campanha vitoriosa para deputado estadual, em 2002 (Foto: Arquivo pessoal)

SPressoSP – O senhor ficou com dívidas da campanha?

Adriano Diogo –A minha campanha só saiu pra rua porque alguns deputados estaduais me ajudaram, o diretório estadual não me ajudou em nada. Sim, tenho dívidas e estou numa situação dificílima, mas nunca vou sair do partido, sou petista e lulista. O PT foi uma das maiores genialidades criadas pelo povo brasileiro. O Lula está para a esquerda assim como Mandela para a África do Sul. Antes do PT e do Lula, a esquerda não tinha expressão eleitoral, era uma fração de roqueiro de garagem. Sou um cara cristão, de origem católica, da Teologia da Libertação, não é porque tivemos dois papados de atraso que vou renunciar à igreja e entregar para a Opus Dei. O mesmo serve para o PT, não é porque uma série de equívocos estão sendo cometidos que vou virar as costas para o partido.

SPressoSP – O que o senhor achou da entrevista da Marta Suplicy?

Adriano Diogo – Acho que a Marta exagerou nas críticas e no destempero. Não havia a necessidade, com o passado que ela tem, de ter rebaixado tanto o nível da crítica. A Marta tem uma tremenda contribuição para São Paulo, o mandato dela como prefeita foi exemplar, um marco para a cidade. Temos que fazer um tremendo esforço para que ela fique. Ela ainda poderá contribuir muito com o povo brasileiro. Mas não acho que o PT vai acabar.

SPressoSP – O PT encolheu na Assembleia Legislativa, perdendo representatividade. Por que isso aconteceu?
Adriano Diogo – Assim mesmo, o PT foi vitorioso, mas não podemos virar um PMDB. Ainda bem que ganhamos a eleição à presidência da República. Imagina se esses caras, com aquele candidato que tinham, ganham a presidência, o caos que seria? Na capinha do meu celular, tenho uma foto da Dilma, sendo interrogada pelos militares, o símbolo do meu gabinete é uma foto da Dilma, que eu acredito ser uma mulher de esquerda. Mas, veja bem, essa crise é por substituição, que coloca agora como prioridade a teologia da prosperidade, o empreendedorismo e essa política de alianças, que é tão ampla, que daqui a pouco não vai ter espaço nem para o PT. O partido é uma coisa, o governo é outra completamente distinta. Os governos petistas estão cada vez mais afastados do PT e dos movimentos sociais, isso é muito ruim.

SPressoSP – O senhor acha que o partido deve fazer uma autocrítica?
Adriano Diogo – Essa palavra é horrível, muito usada no stalinismo, não sei se devo usar. Mas o PT deve encarar o momento político duro que está vivendo para fazer uma profunda discussão. Quando o PT foi formado, olha só, tínhamos Florestan Fernandes, Apolônio de Carvalho, Paulo Freire, Plínio de Arruda Sampaio, Manoel da Conceição, o Carlos Gianazzi, tinha uma riqueza de quadros, era uma geração de ouro.

Em 2003, Marta Suplicy era prefeita de São Paulo e Dilma Rousseff era ministra de Minas e Energia. Ambas participaram da inauguração do Aterro Bandeirantes com o deputado estadual Adriano Diogo (Foto: Arquivo pessoal)
Em 2003, Marta Suplicy era prefeita de São Paulo e Dilma Rousseff era ministra de Minas e Energia. Ambas participaram da inauguração do Aterro Bandeirantes com o deputado estadual Adriano Diogo (Foto: Arquivo pessoal)

SPressoSP – Deputado, voltando para sua trajetória na Alesp, como têm sido esses últimos dias como parlamentar?
Adriano Diogo – Muito triste. Estou muito mal, de verdade. Estou fazendo essa CPI, que é uma tremenda motivação, mas é um jeito de preencher esse vazio que tenho sentido. Tenho 65 anos e só me dediquei a isso a vida inteira, não sei fazer outra coisa que não política. Será que vou ter que implorar para um carguinho de assessor? Querem que me humilhe? Vai ser um período duro de transição, porque vou ter que voltar a ser geólogo e montar um projeto de trabalho e de vida. Não vou ficar batendo na porta do governo, pegando dinheiro de fundação.

Quando você é esquecido, fica com raiva da luta. Não quero ter raiva da luta, quero me orgulhar da luta. Porque quando precisa, chamam a velha guarda. Não quero ficar naquela caixa dos que estão queimados, só quero trabalhar. Vou trabalhar, saí da campanha com dívida que tenho que pagar, tem meu pessoal do gabinete que está comigo há vinte, trinta anos. Enfim, vou ver o que farei da vida. Fui convidado pela Laura Capriglione para escrever no portal da Ponte, mas ainda não decidi. Já fui preso. Era recém-casado e a repressão entrou em meu apartamento e roubou tudo. Eu sempre recomecei. Mas, olha, nunca passei por um momento tão difícil como esse, pelo abandono e pelo descaso. Estou sem nenhum tipo de solidariedade ou companheirismo. É como se fosse um problema individual e solitário.

SPressoSP – Como se deu a ponte entre militância e política na sua vida?
Adriano Diogo – Ali por 1978 ou 1979, com a lei de Anistia, um monte de gente começou a sair da cadeia, outros foram chegando do exílio, e começamos a organizar a terceira via no país, que gerou o PT. Estava na campanha do voto nulo, aí soube da ideia do partido e comecei a me envolver. Foi uma guinada sadia. O José Dirceu montou todo o partido a partir daqui de São Paulo, nós fizemos uma guinada das ruas para as instituições. As reuniões do Comitê das Diretas Já era na sala da liderança do PT na Câmara, em São Paulo.

SPressoSP – O senhor teve quatro mandatos como vereador em São Paulo. O que se recorda desse período?
Adriano Diogo – O [Eduardo] Suplicy era o presidente da Câmara e a Luiza Erundina era prefeita. Foi um período maluco e maravilhoso. Imaginem vocês que Paulo Freire era secretario de Educação, Marilena Chauí era secretaria de Cultura, o Paul Singer estava como secretario de Planejamento e por aí vai. Fiz a primeira lei de coleta seletiva, da organização dos catadores, da concessão de áreas aos conjuntos habitacionais, a Lei Orgânica do Município… Uma verdadeira reforma urbana. Tinha muito movimento popular, mas uma articulação institucional terrível. Foi inclusive nesse período que o Lucio Gregori traz a proposta do Tarifa Zero, que foi muito mal discutida e continua sendo mal discutida. Acho uma proposta ruim. Não estou dizendo que essa meninada do MPL está errada em lutar, pelo contrário, eles fazem a luta pela esquerda, mas a proposta do Lucio é inconsistente. O Brasil teria que colocar em sua lei maior que teremos três prioridades orçamentárias: saúde, educação e transporte.

Adriano Diogo conduzindo, recentemente, audiência da Comissão da Verdade de São Paulo (Foto: Arquivo pessoal)
Adriano Diogo conduzindo, recentemente, audiência da Comissão da Verdade de São Paulo (Foto: Arquivo pessoal)

SPressoSP – O senhor foi, como vereador e depois como deputado, opositor aos prefeitos Paulo Maluf e Celso Pitta e depois aos governadores Geraldo Alckmin e José Serra…

Adriano Diogo – Que extrato fascista da política, não? Pra gente, o Maluf sempre foi a marca do fascismo. Imagina, agora, nós do PT estamos compondo com o Maluf. Que maluco, ele é a cara da ditadura. Enfim, sempre foi, em todos os casos, uma oposição quixotesca e franco-atiradora, sendo minoria. Mas, voltando, será que um cara como eu, com essa trajetória, não tinha que ser deputado federal? O Lula, que sempre teve uma visão macro do partido, sempre resgatou os seus quadros importantes, e agora, com essa orientação de Brasília, ninguém se preocupa com ninguém. Outro dia o Jânio de Freitas escreveu um artigo maravilhoso dizendo que os governos do PT ficam distantes do partido, isso é verdade. O partido é o maior celeiro de quadros do país, nos acusam de estar metidos em corrupção, mas 95% das pessoas do PT abominam essa prática.

Quando era vereador, tinha mais contato com Pitta, Maluf e [Paulo Roberto] Faria Lima [vereador de 1997 até 2000], esses loucos aí, o PSDB não era muito atuante. Quando vim pra ser deputado, em 2003, é que entendi como o PSDB agia. O Serra é um cara de origem de esquerda, mas um conspirador da direita, junto com o Aloysio Nunes. Então, o PSDB pegou as bandeiras da direita e fez as composições mais horrorosas. Mas ainda acho que Maluf e Pitta eram piores do que Alckmin e Serra. Nunca imaginei que o PSDB fosse competir com a direita de forma tão rebaixada, a ponto do Aloysio Nunes e o José Serra estarem com o Lobão e outros zumbis pedindo a volta da ditadura militar.

SPressoSP – Fazer oposição ao PSDB, aqui na Alesp…

Adriano Diogo – É difícil. Eles barram tudo e são blindados pela mídia. Essa CPI das universidades estaduais só saiu agora porque aqui na Alesp o pessoal está de saco cheio deles, priorizou essa CPI e abriu mão de outras sete. Mas o PT se esforça demais, derrubamos a “dupla porta”, o trabalho feito contra o cartel do Metrô, que tornou o caso público, apesar de ser barrado na Alesp.

SPressoSP – Quem foi o parlamentar que impressionou o senhor em sua vida política?

Adriano Diogo – Sem dúvida, o José Genoino. Mas tem outros, Aldaíza Sposati e Rui Falcão. Mais recentemente, o João Paulo Rillo, uma importante liderança.

SPressoSP – E o pior?

Adriano Diogo – Tive diversos desafetos, mas Aloysio Nunes e José Serra são os piores parlamentares que vi, sem dúvida.

 

 

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