Home»Sem categoria»“A igreja católica tem uma postura homofóbica dissimulada”, afirma padre

“A igreja católica tem uma postura homofóbica dissimulada”, afirma padre

Religioso de Bauru, no interior de São Paulo, teve a excomunhão oficializada pelo Vaticano, nesta semana, por defender a união homossexual; “Fatalmente, a igreja vai ter que rever tudo isso” 

Por Ivan Longo 

Há 15 anos no sacerdócio, o padre Roberto Francisco Daniel , mais conhecido como padre Beto, amadureceu tanto sua visão de mundo ao longo dos anos que chegou ao ponto de não temer se expressar e colocar em risco sua reputação como religioso e sua posição dentro da igreja. E assim o fez. Natural de Bauru, no interior de São Paulo, onde exerce, desde o início, sua função como padre, o religioso se afastou das atividades eclesiásticas em abril do ano passado, quando começou a circular na internet o vídeo de uma entrevista em que ele se coloca a favor da união homossexual e questiona dogmas da igreja católica. 

No último domingo (16), a Diocese de Bauru publicou em seu site um comunicado que informava sobre a oficialização da excomunhão de padre Beto por parte do Vaticano. A partir de agora, ele fica proibido de rezar missas ou conduzir cerimônias religiosas em nome do catolicismo. 

“Eu nunca esperava por uma excomunhão. Porque a palavra excomunhão é muito forte. A excomunhão não é simplesmente a exclusão, ela é a pena capital. O excomungado na idade media era executado. No século passado, era uma pessoa que não tinha vida social, não podia ser enterrado em cemitério normal”, disse o padre que, apesar de não esperar pela pena, não pretende voltar a falar em nome da igreja católica. “Para a igreja católica eu não volto mesmo”, afirmou. 

Padre Beto é autor do livro “Jesus e a sexualidade – Revelações da Bíblia que você nunca viu”, que quebra tabus da igreja como a de que Jesus Cristo não tinha sexualidade e que questiona a maneira como o catolicismo trabalha essas questões. O padre, agora não mais “oficial”, acredita que os tabus impostos pela religião contribuem imensamente para a intensificação da intolerância para com os homossexuais na sociedade. 

“Mesmo aqueles que não frequentam a igreja, conhecem a doutrina católica e acabam sendo contaminados com isso no ambiente familiar. Então a igreja católica contribui não para uma humanização da sociedade, mas para o cultivo de uma homofobia. A postura da igreja católica é, portanto, homofóbica dissimulada. Ela diz assim: ‘eu aceito o homossexual, mas esse homossexual está convidado à castidade pois não aceitamos a homossexualidade’. É a mesma coisa que dizer para um negro ‘olha, nós aceitamos você mas não aceitamos a sua negritude, sua cor. Então você tem que fazer chapinha no cabelo, ter alma branca, se comportar como qualquer branco da sociedade’. É mais ou menos por aí. Nós aceitamos a pessoa como se a pessoa tivesse dissociada de sua sexualidade”, analisou. 

O padre paulista, que é formado em Direito, História e Teologia, tendo feito, inclusive, doutorado em Ética Social na Alemanha, acredita, contudo, que as questões de sexualidade serão mais discutidas dentro da igreja católica. 

“Fatalmente a igreja vai ter que rever tudo isso, vai ser obrigada. E ela terá que rever tudo isso para não se tornar, ainda mais, uma igreja contraditória. E não digo nem que ela deva ter preocupações de perder fiéis, mas a preocupação maior é a coerência. Veja bem, nós vivemos em um país onde mais de 50% das famílias são ‘famílias mosaico’, isto é, aquelas que não estão naquele molde familiar que a igreja prega. Então, a igreja não está sabendo ver a realidade e conhecer melhor essa realidade Eu não tenho dúvidas de que esse Papa ou o seu sucessor vai chegar para o grupo LGBT e pedir perdão. Eu não tenho dúvidas, só que até lá muitos homossexuais ainda vão morrer pela homofobia que existe no nosso país”, concluiu.

A íntegra da entrevista com o Padre Beto você confere na próxima edição da Revista Fórum Semanal.  

Foto: reprodução/Facebook

Comentários

Comentários

Haddad vai abrir edital público para definir futuro do Pacaembu

Prefeitura de São Paulo vai entregar 11 mil moradias aos movimentos sem-teto