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“Chega de chacina, polícia assassina”

02 de outubro, 22 anos após o massacre do Carandiru, coletivos e movimentos sociais saem às ruas pelo fim da política de encarceramento e os constantes massacres da população negra, pobre e periférica que ainda acontecem em SP; ironicamente, a manifestação foi marcada por forte aparato policial; veja fotos 

Por Ivan Longo 

Fotos: Ivan Longo 

Para quem via de longe, parecia mais uma manifestação de policiais. Mas tratava-se, na verdade, de um protesto justamente contra a polícia. O ato “Nossos Mortos Têm Voz”, organizado por uma série de movimentos sociais e coletivos para rememorar os 22 anos do massacre do Carandiru, reuniu cerca de 500 pessoas nesta quinta-feira (2) na Praça da Luz, região central da capital. Ironicamente, a PM mobilizou um forte aparato policial, que acompanhou os manifestantes durante todo o trajeto.

Além de prestar homenagem às 111 vítimas que foram assassinadas pela polícia na antiga Casa de Detenção da zona norte, o ato foi convocado, acima de tudo, para chamar atenção para o fato de que, passados 20 anos do massacre, a lógica punitiva, a política de encarceramento e a violência policial permanecem as mesmas. O Brasil é terceiro lugar no ranking de maior população carcerária do mundo e a Polícia Militar de São Paulo acumula 10 mil assassinatos nos últimos 19 anos.

“Os massacres continuam, não ficou lá atrás. Continua, mas dentro das periferias (…) A periferia grita: Basta de extermínio, basta de massacre do nosso povo. Por que a gente sabe quem está sendo massacrado e quem está sendo encarcerado: é o pobre, negro e periférico. Não existe cadeia para rico, não existe caixão e nem cova rasa para rico. Para poder barrar essa violência institucional, a gente tem que pedir a desmilitarização da polícia”, afirmou Debora Maria da Silva, coordenadora e fundadora do movimento Mães de Maio.

Débora, que teve um filho morto nos chamados “Crimes de Maio” – sequência de assassinatos feitos por policiais, ocorridos em maio de 2006 na Baixada Santista, Guarulhos e na capital – acredita, sobretudo, que seja importante uma reforma total da política e do judiciário uma vez que nenhum daqueles que estão ou almejam o poder tem compromissos com uma mudança da lógica de segurança pública.

“Para nós, nenhum político que está no poder e que quer o poder nos representa. Por que foi querendo esse poder que o Estado de São Paulo ordenou a matança dos nossos filhos. A matança do Carandiru também. Com medo de perder votos, os candidatos não tocam na ferida maior no nosso estado, que é uma chaga, uma doença crônica, que é a segurança pública. Não podemos e não aceitamos dizer que a ditadura acabou por que, se a ditadura acabou, eles esqueceram de avisar para a polícia”, disse.

Camila Melo, militante da Rede 02 de Outubro, ressaltou que é importante lutar pela desmilitarização da polícia e pelo fim da lógica de encarceramento pois, os crimes cometidos pela polícia hoje, tem total relação com o massacre do Carandiru.

“O mais importante que a gente pontua é que o massacre do Carandiru e todos os outros massacres que acontecem dentro e fora dos presídios continuam e se remetem à organização militarizada do estado”, analisou. “A pauta principal é pelo fim das prisões. A gente tem uma perspectiva abolicionista e a gente entende que as prisões só servem para reforçar o estado burguês e toda essa condição que está colocada”.

A manifestação percorreu diversas ruas do centro até chegar ao prédio da prefeitura, próximo ao viaduto do chá. Ao som de bateria, mães de internos do sistema prisional, coletivos da periferia e integrantes de movimentos sociais entoavam gritos conta a polícia, que acompanhou, inclusive com a Tropa de Choque, todo o trajeto.

Um dos PM’s, quando questionado sobre a quantidade desproporcional de policias, disse que era o “padrão”de agora para manifestações. “É pra dar mais segurança para os dois lados”.

Entre gritos que lembravam de Amarildo e do camelô morto na Lapa – ambos vítimas da PM, os manifestantes realizaram uma intervenção teatral satirizando o governador Geraldo Alckmin (PSDB). O personagem que interpretava Alckmin usava uma roupa com logomarcas de grandes empresas e segurava pela coleira três “cães de guarda”, um referência á Polícia Militar. “Alckmin, guarde seus cães de guarda assassinos”, gritavam os manifestantes.

O massacre 

No dia 2 de outubro de 1992, a Polícia Militar de São Paulo matou 111 presos rendidos e desarmados em operação para controlar uma rebelião na Casa de Detenção de São Paulo. Conhecido como Carandiru, o presídio inaugurado em 1920 funcionava na zona norte da capital. O local chegou a abrigar 8 mil detentos no período de maior lotação. A unidade foi desativada e parcialmente demolida em 2002.

Em julgamento dividido em quatro etapas, 73 policiais foram condenados pelo massacre, recebendo penas entre 48 e 624 anos de reclusão.

Confira abaixo algumas fotos do ato:

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