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Das 482 empresas que ofereceram emprego para haitianos, só 78 puderam contratar

Maioria pagava salários reduzidos, algumas abaixo do mínimo. ‘Não é caridade! Eles precisam de trabalho e a empresa, de trabalhador’, diz coordenador de ONG que acolhe imigrantes

Por Sarah Fernandes, na RBA

Entre as 482 empresas que procuraram a organização não-governamental Missão de Paz para divulgar vagas de emprego para imigrantes haitianos que chegaram a São Paulo entre abril e maio, apenas 78 ofereceram salários e condições de trabalho que possibilitaram as contratações. A ONG chegou a acolher 662 imigrantes vindos do Acre. Atualmente, a maioria já está trabalhando.

O principal motivo, segundo o diretor da Missão de Paz, padre Paolo Parise, eram os baixos salários oferecidos, alguns inclusive menores do que o mínimo. O ideal para os imigrantes seria um valor a partir de R$ 1.100, que permite que eles se mantenham no Brasil e enviem dinheiro para suas famílias no Haiti, segundo cálculos da ONG.

“Nós oferecemos para os empresários uma palestra e percebemos que alguns queriam oferecer salários muito baixos, até menores do que o no mínimo. Muitos vêm com a ideia errada que vão oferecer algo para ajudar os coitadinhos. Não é um coitadinho: é uma pessoa que tem todo o direito de viver como um cidadão brasileiro. E não se trata de fazer caridade! Ele precisa de trabalho e a empresa precisa de trabalhador”, relata padre Parise.

A maioria das empresas que procurou a Missão de Paz interessadas em contratar imigrantes haitianos era da área de construção civil, frigoríficos, restaurantes e serviços, em especial limpeza. Elas se concentravam em São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. “Quando as empresas são muito afastadas ou quando querem contratar poucas pessoas eles ficam inseguros e acabam não aceitando”, conta padre Parise.

De acordo com o coordenador, é necessário que as empresas tenham uma atenção especial com os trabalhadores imigrantes, levando em conta possíveis dificuldades com a língua, facilitando acesso à internet para que possam se comunicar com a família, e oferecendo abrigo, pelo menos nos primeiros meses. “Alertamos que é preciso também estar atentas aos costumes religiosos e alimentares: os haitianos adoram carne de frango, mas não comem carne de porco, por exemplo”.

De acordo com um levantamento feito pela Missão de Paz, apenas 20% dos imigrantes vêm direto de Porto Príncipe, capital do Haiti, para o Brasil, já que o número de vistos emitidos pela embaixada brasileira no país é menor do que a demanda. A maioria deles passa pelo Equador e pelo Peru e chega ao Brasil pelos municípios de Brasiléia (AC) e Tabatinga (AM). A viagem, repleta de riscos, chega a custar US$ 3 mil, pagos para os chamados coiotes, responsáveis por fazer a travessia ilegal.

Entre os imigrantes haitianos que vieram a São Paulo nos últimos dois meses, (70%) têm entre 18 e 50 anos. A maioria é de homens, sendo que as mulheres e o restante da família comumente vêm para o Brasil em um segundo momento, depois de os primeiros já estarem empregados. Ao todo, 40% estudaram o equivalente ao ensino médio. Uma parcela menor tem cursos universitários, em geral em letras, engenharia e comunicação social.

Política imigratória

Em abril, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) autorizou a emissão de carteiras de trabalho para os haitianos que chegaram a São Paulo. Foi realizado, inclusive, um mutirão na Missão de Paz para facilitar a emissão, de forma que todos os que chegaram à ONG conseguiram o documento.

De acordo com o padre Parise, a visibilidade dada aos haitianos deveria facilitar a emissão de documentos para imigrantes de outras nacionalidades. “Conhecemos uma mulher que veio do Congo escondida em um navio e esperou mais de dois meses pela carteira de trabalho. Ela vai ficar dois meses vivendo do quê? Aí é claro que vai aceitar trabalhos informais”, diz. “É o insucesso de uma política não planejada. Facilitar a emissão de documentos só dificultaria a exploração dos imigrantes.”

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