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O cotidiano da diáspora haitiana no centro de São Paulo

Em busca de trabalho no país, haitianos relatam experiência em abrigo. Apesar disso, há uma série de desafios para melhorar condições de estrangeiros 

Por Patrícia Dichtchekenian, no Opera Mundi

“Não se pode falar mal do Brasil para um haitiano”, diz Kenny Michaud a Opera Mundi. Depois de morar na Austrália, Canadá e França, ele garante que agora está no “melhor lugar do mundo pra receber imigrantes”. Aos 29 anos e há quase cinco meses em São Paulo, Kenny corresponde ao perfil dos haitianos que chegam ao Brasil: jovem, homem e sem tempo para brincadeiras. Kenny não fuma, nem bebe.

A esposa está grávida de gêmeos e sua meta aqui é trabalhar. “Não acreditamos que haja oportunidades na ilha. No Brasil, tudo é mais fácil e é o único local que está recebendo os haitianos com humanidade. Em outros países, é um inferno. Se um haitiano disser que não trabalha por aqui é porque ele não quer”, assegura.

Para entender os elogios de Kenny, é preciso remontar a um período anterior. Desde os dias 8 e 9 de abril, a chegada massiva de haitianos em São Paulo por meio de ônibus fretados pelo governo do Acre chamou atenção da imprensa, da sociedade civil e de diversas organizações humanitárias. Por meses, um abrigo emergencial para imigrantes funcionou na cidade fronteiriça de Brasileia, no Acre. Com as enchentes do rio Madeira e com as frequentes superlotações do local, o governo acreano anunciou o fechamento do local em abril.

A partir daí, haitianos foram encaminhados para Rio Branco e, de lá, seguiram viagem para outros estados. Dos cerca de 40 que até hoje embarcam no veículo fretado diariamente, não são todos que continuam até o destino final. Os que pretendem ir até São Paulo passam quatro dias e três noites no trajeto e, em muitos casos, chegam sem dinheiro ou documento. “Recebi gente adoecida, que veio até aqui sem comer durante os quatro dias de trajeto”, relata Kenny.

Alguns vão direto para alguma empresa em que já entrou em contato e outros vão pra casa de familiares que moram em algum canto do país. Muitos já saem do Haiti com o endereço da Missão de Paz, ONG ligada à Pastoral do Imigrante e à paróquia Nossa Senhora da Paz, cujo complexo fica situado no bairro do Glicério. Desde 1939 em atividade, o local acolhe diariamente 110 imigrantes e de 60 a 70 nacionalidades por ano.

Kenny trabalha a apenas 200 metros deste complexo como funcionário do abrigo temporário da Prefeitura de São Paulo, em funcionamento desde o dia 8 de maio como resposta emergencial do poder público à “inesperada” vinda dos haitianos à cidade. Com capacidade para 120 pessoas, o estabelecimento – uma antiga igreja da Assembleia de Deus – foi adquirido em comodato por um período de três meses.

Rotina no abrigo

Por trás do portão cinza, já passaram mais de 840 haitianos em um mês. Apesar destes representarem cerca de 90% dos imigrantes, eles dividem espaço com outras 11 nacionalidades, como angolanos, peruanos, colombianos, cubanos e congolenses. Lá, o fluxo é rotativo: há pessoas que chegam pela manhã e vão embora ao fim da tarde e há outras que passam de dois a três dias no local, em média.

Neste intervalo, muitos imigrantes vão atrás da regulamentação de seus papeis para tirar carteira de trabalho. “Quanto pior for a situação de regularização de documentos, maior a necessidade de assistência social. O desafio é acelerar a burocracia, senão o problema vai inflando.  Ninguém quer ficar muito tempo em abrigos”, afirma Guilherme Otero, assessor de Políticas para Migrantes da Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo.

No abrigo, as pessoas se auto-organizam. Quando novos imigrantes batem à porta, o haitiano Michel, de 28 anos é o principal encarregado de recebê-los para direcioná-los a Kenny. Enquanto alguns conversam em crioulo haitiano no pátio, outros estendem roupas recém-lavadas em varais ou varrem o chão. Como o Cristianismo tem forte representatividade na ilha, é possível encontrar muitos lendo bíblias ou cantando orações, como Ytelmy Rilet e Eletinor Clean, da Igreja da Fé Apostólica de Deus.

Mais homens

Há uma clara predominância de homens em relação às mulheres. Foram montados cerca de 105 leitos na ala masculina, dispostos no salão principal do estabelecimento, exatamente onde ficava o antigo altar da igreja. Já as mulheres se reúnem em um quarto menor e bem mais vazio, com apenas 6 ou 7 beliches. Apesar da qualidade de estranhas, a maioria conversa com a maior naturalidade umas com as outras.

Há um mês no Brasil, Johnny Santil, de 27 anos, alega que não encontra emprego na ilha desde o terremoto. “Quero ficar uns dois anos por aqui pra juntar um dinheiro e voltar”, diz. Ele conversa em francês, mas gosta de arranhar um inglês. “No Haiti, estudei no Insitito Eagle, e você? Onde aprendeu inglês?”.

Já Evens Saint-Pierre, de 32 anos, é contador de formação, mas trabalha com construção civil. “Tenho medo de me machucar e queria voltar para a área que estudei”, conta. “Infelizmente, os imóveis em São Paulo são muito caros e a gente tem que trabalhar para pagar”, completa.

Apesar de a maioria dos haitianos no Brasil serem homens, as mulheres também vêm ao país atrás de emprego, em grande parte, sozinhas. Este é o caso de Jean Charles Epaïnété, de 31 anos, que afirmou estar procurando algum tipo de remuneração no setor cultural para enviar dinheiro para sua filha, de 11 anos. “Penso em ficar dois anos por aqui e só. Não posso ficar mais tempo do que isso sem ver minha Jennifer, certo?.

* Colaboraram Igor Truz e Mariane Roccelo
* Foto de capa: Mariane Roccelo/ Opera Mundi

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