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Movimento Passe Livre e a festa reprimida

O ato, em comemoração por um ano de revogação da tarifa, caminhava com festa quando um pequeno grupo, não apoiado pelos manifestantes, iniciou depredações; diferentemente do que foi noticiado por alguns veículos, PM não revidou, mas atacou

Por Ivan Longo 

O ato era para comemorar, mas também para continuar reivindicando a gratuidade no transporte. (Fotos: Ivan Longo)
O ato era para comemorar, mas também para continuar reivindicando a gratuidade no transporte. (Fotos: Ivan Longo)

Cerca de 3 mil pessoas participaram, nesta quinta-feira (19), do ato “Não vai ter tarifa”, organizado pelo Movimento Passe Livre com o intuito de comemorar um ano de revogação do aumento da tarifa do ônibus, bem como reivindicar a gratuidade no transporte público e o direito à cidade.

“Nosso ato, hoje, é pela tarifa zero, mas também para questionar a cidade que está sendo imposta pela FIFA, pelos grandes empresários e pela especulação imobiliária. Estamos também contra essa cidade excludente”, afirmou, no início da manifestação, Letícia Cardoso, que faz parte do movimento.

Depois de se concentrarem na Praça do Ciclista, por volta das 17h os manifestantes entraram no túnel que dá acesso à av. Paulista, pegaram a av. Rebouças e seguiram até a Marginal Pinheiros, sentido Castello Branco.

Além dos já tradicionais gritos de ordem pedindo o passe livre no transporte coletivo, o ato reivindicou, durante todo o percurso, a readmissão dos metroviários, motoristas e cobradores de ônibus que foram dispensados depois das greves.

O caminho e a festa 

Ao som da bateria da Fanfarra do M.A.L., a passeata seguiu, durante a maior parte do percurso, tranquila e muito animada. O objetivo, ao chegar na Marginal Pinheiros, era fazer uma grande festa popular, como contraponto a falta de espaços públicos e a “cidade para poucos”. “Se a Copa é dos ricos, a cidade é nossa”, afirmavam os manifestantes.

Sem a presença da Polícia Militar durante quase todo o trajeto, o ato foi acompanhado somente por alguns carros da CET. O grito entoado pelos manifestantes, “mas que coincidência: não tem polícia, não tem violência”, naquele momento, foi oportuno afinal, a manifestação já havia tomado grandes proporções, tomava todas as faixas da avenida Rebouças e nenhum tipo de confronto havia ocorrido até então.

A caminho da Marginal Pinheiros, os manifestantes, em festa, fecham a av. Rebouças.
A caminho da Marginal Pinheiros, os manifestantes, em festa, fecham a av. Rebouças.

Já no final da avenida, quando o ato se aproximava da Marginal Pinheiros, um pequeno grupo, que não passava de 10 mascarados, começou a atirar pedras em agências bancárias. Prontamente, integrantes do Movimento Passe Livre, bem como outros manifestantes, pediram para que o pequeno grupo de mascarados não agissem com vandalismo e que voltassem ao ato. Ficou claro que as mais de 3 mil pessoas presentes na rua, naquele momento, não apoiavam aquela dissidência.

Quando a manifestação finalmente chegou na Marginal, começou a festa. Catracas de papelão foram queimadas e bandeirolas penduradas, dando início a Festa Junina popular do Passe Livre. Teve música, recital de poesias e até futebol de rua.

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Catracas em chamas na festa junina do Passe Livre
Teve também o futebol de rua
Teve também o futebol de rua

Depois de certo tempo, a passeata seguiu pelas ruas de Pinheiros sentido Largo da Batata, onde a festa continuaria sem hora para acabar. Antes de chegar ao local esperado, entretanto, a Polícia Militar, ausente durante todo o protesto, finalmente apareceu, e recebeu os manifestantes como já é de costume: com bombas de gás e repressão.

PM chegou, festa acabou 

Entre a Marginal Pinheiros e o caminho para o Largo da Batata, o pequeno grupo de mascarados resolveu atacar agências bancárias e concessionárias de automóveis novamente. Como já citado anteriormente, eram menos de 10 pessoas que praticavam os atos de vandalismo e, toda vez que desviavam da passeata ou empunhavam uma pedra, eram firmemente reprimido pelos outros manifestantes. “Sai daí!”, “Para!”, “Volta!”, gritavam a maior parte das pessoas aos mascarados. Houve até mesmo discussão entre integrantes do MPL e adeptos à tática Black Bloc.

Agência da Caixa depredada pelo pequeno grupo de black blocs
Agência da Caixa depredada pelo pequeno grupo de black blocs

Quando a passeata acessava o Largo da Batata e os manifestantes já estavam relativamente dispersados por conta da confusão com os Black Blocs, agentes da Polícia Militar começaram um ataque de surpresa. O alvo, no entanto, não era o pequeno grupo que cometia os atos de vandalismo, mas a manifestação como um todo.

Em menos de 10 minutos, bombas de gás e estilhaçantes tomaram o Largo da Batata e dispersaram completamente uma festa que iria começar no local. Mesmo quando já não havia mais manifestantes na rua, a PM continuava a atirar bombas para assustar as pessoas e evitar qualquer tipo de concentração.

Confira o momento em que a PM começa a atirar em direção ao Largo da Batata, onde estavam os manifestantes:

“Vai tomar no cu com essas fotos. Sai!” 

Depois de acabar com a manifestação e a festa de mais de 3 mil pessoas – e não exatamente dos black blocks – um contingente enorme de policiais, inclusive com a cavalaria da Tropa de Choque, dominou o Largo da Batata e as ruas nos entornos.

Como as bombas dispersaram a manifestação rapidamente, muitos jornalistas ficaram circulando pelo local imaginando ainda algum tipo de confronto, já que a presença da PM  era maciça no local.

Quando um grupo de aproximadamente 30 agentes da Tropa de Choque foi visto na frente de uma loja de automóveis, jornalistas e outras pessoas se aproximaram para fazer fotografias e rapidamente percebeu-se um detalhe: alguns dos PMs estavam sem a identificação na farda. Ao perceber que estava sendo fotografado, um deles se irritou.

Policiais concentrados depois de dispersar a manifestação. Um deles se irritou e agrediu jornalistas. (Foto: Davi Andres)
Policiais concentrados depois de dispersar a manifestação. Um deles se irritou e agrediu jornalistas. (Foto: Davi Andres)

“Vai tomar no cu com essas fotos. Sai! Vai lá pra outra rua”. O policial, que não quis falar com a imprensa, não se limitou aos xingamentos, e empurrou uma repórter do portal Terra e, com um chute, afastou um fotógrafo da Getty Images.

Em pouco tempo a Polícia Militar conseguiu expulsar manifestantes, black blocs e, finalmente, jornalistas. A fumaça das bombas deu a ordem no Largo da Batata que, por volta das 21h, só tinha policiais.

 

 

 

 

 

 

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