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Cine-debate discute o conceito de violência em manifestações

Movimento Passe Livre de São José dos Campos exibe filme e abre discussão sobre o que é e o que não é violência

Por Marianna Gonçalves, texto e foto

A maioria das discussões sobre os Black Bloc, ou sobre grupos que praticam formas de desobediência similares, erra ao definir essas ações como violentas e também ao tratá-las como um fenômeno novo. Essa é uma das conclusões do professor Pablo Ortellado, da USP, durante cine-debate com o filme “Diaz: Don’t Clean Up This Blood”, promovido pelo MPL-SJC (Movimento Passe Livre – São José dos Campos), na última quarta-feira (23).

Paulo Monteiro, integrante do MPL-SJC, explica que a iniciativa de exibir o filme teve como objetivo problematizar como o senso comum define o que é e o que não é violência. “Como quase toda ideia, a violência não é um conceito neutro, há uma disputa de interesses que define o seu significado. Por que é um ato de violência chocante quebrar um banco e, ao mesmo tempo, é aceitável pessoas serem feridas, perderem a visão ou serem mortas em ação policial?”, questiona. O cine-debate foi realizado no Teatro da Rua Eliza, espaço administrado por grupos teatrais autônomos da cidade.

“Diaz” foi produzido em 2012 e recebeu o segundo prêmio do público no Panorama em Berlim. O filme tem como pano de fundo os protestos antiglobalização realizados na cidade de Gênova, na Itália, em 2001. A história é centrada em um grupo de jovens ativistas políticos, os quais se encontram abrigados em uma escola pública até que a polícia decide invadir o local para atingi-los. A Anistia Internacional considera o episódio simplesmente “a mais séria suspensão dos direitos democráticos num país ocidental desde a Segunda Guerra Mundial.”

Ortellado, um dos fundadores do CMI no Brasil, ressalta que as cenas de violência são muito fortes, mas é um filme necessário.“(Diaz) retrata bem o chocante episódio do sistemático espancamento de ativistas pelos carabinieri ao final do encontro do G8 em Gênova em 200 e a atmosfera do nosso movimento é adequadamente retratada”, comenta.

Black Block não é violento

Ao iniciar a roda de conversa, uma das primeiras observações que o professor Ortellado fez foi ressaltar o caráter não violento da ação Black Bloc, o qual tem raízes históricas que reprovam atos de violência contra pessoas ou animais.

“A forma como ação dos BBs é reproduzida no Brasil tem inspiração na escolha feita por movimentos sociais nos EUA, na década de 90, quando alguns manifestantes romperam com a ideia de que a desobediência civil deveria ser sempre passiva”, explica. Segundo o professor, isso aconteceu a partir do momento que a mídia se tornou insensível à violência policial, deixando de relatar ações de brutalidade contra os manifestantes.

Ele observa que, salvo raras exceções, é possível afirmar que, no Brasil, tem sido respeitada essa ideia de que pessoas, animais e pequenos comércios não são alvos da ação black bloc. E, ainda, aponta que é preciso frisar que a ação é efetiva, pois cumpre o seu objetivo de alcançar a atenção da mídia.

“Já aconteceu de marchas com 10, 15 mil pessoas simplesmente não serem relatadas nos jornais. Daí, quando um grupo de 30, 40 manifestantes quebra a entrada de um banco ou de uma rede de lanchonete, a manifestação ganha a capa do jornal. Isso é um prêmio para eles”, observa.

A arquiteta Frida Nossack, presente no debate, também concorda que o conceito de violência é atribuído de maneira inadequada. “É um absurdo dizer que uma agência bancária sofre violência. Caixa eletrônico sente dor? Os BBs atacam coisas, atacam símbolos e esses ataques não são violentos”, avalia.

Sectarização dos protestos

Marcelo Lira, ativista da área cultural, acredita que a ação dos black bloc acaba afastando outros manifestantes, o que enfraqueceria os protestos, além de servir como uma justificativa para a repressão policial.

“Acho que quebrar ou pichar bancos e outros espaços faz com que algumas pessoas fiquem com medo de irem nas manifestações porque não querem confusão, isso é ruim. Outra coisa é que você dá o motivo para a polícia ir para cima do protesto”, critica Lira.

Ortellado conta que, nos protestos antiglobalização, como os retratados em Diaz, chegaram a criar uma estratégia que “destinava” áreas da cidade para os diferentes tipos de manifestação, mas que isso não funcionou, “porque a mídia só dava atenção onde ocorria a ação dos black bloc”.

No entanto, o professor aponta que os adeptos da tática e os movimentos sociais de modo geral não têm conseguido revelar, na medida adequada, a repressão e violência policial.

Para Mayla Azeitona, outra integrante do MPL-SJC, a presença dos Black Bloc nos protestos aumenta a sensação de segurança. “Depois que eu vi um amigo sendo espancado por quatro policias, tenho mais confiança em participar de um ação quando sei que haverá uma defesa contra o excessos do Estado.”

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