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Reconstituição confirma que policial disparou contra Douglas antes de sair da viatura

Há sete meses, jovem morreu sem saber por quê na periferia de SP. PM diz que arma disparou quando sua mão foi atingida pela porta. Para advogados, ele ‘assumiu risco de matar’

Por Rede Brasil Atual

Algumas faixas e cartazes afixados na cena do crime já anunciavam que não seria uma manhã normal na Rua Bacurizinho. As cartolinas pediam “justiça”, e um banner colorido reproduzia uma foto de Douglas Rodrigues, 17 anos, com a promessa de que seu sorriso jamais seria esquecido pelos amigos, familiares e vizinhos do Jardim Brasil, zona norte de São Paulo.

As autoridades haviam escolhido o dia de hoje (17) para fazer a reconstituição do assassinato do garoto, morto por um tiro no peito há quase sete meses, no dia 27 de outubro de 2013. Era domingo, havia gente na rua. Às 14h20, uma viatura se aproximara do barzinho para atender a uma ocorrência de perturbação do sossego – um forró que estava tocando com volume alto demais.

O soldado da Polícia Militar Luciano Pinheiro, 31 anos, vinha no banco do passageiro. O carro freou na transversal. O policial já estava com a arma em punho, engatilhada, antes mesmo de descer. A pistola mirava Douglas, que passava pelo lugar junto com o irmão de 13 anos. O gatilho foi acionado lá de dentro. Após ser atingido, o jovem questionaria o PM: “Por que o senhor atirou em mim?”

A pergunta, uma das últimas frases formuladas por Douglas, daria origem a uma tragédia que ganhou repercussão na imprensa brasileira. Entrou para o rol dos abusos policiais. E virou mote de uma campanha pela desmilitarização da PM em São Paulo. Mas continua insolúvel aos olhos da justiça. O inquérito corre morosamente pelos órgãos militares. Por enquanto.

O resultado da reconstituição pode mudar o rumo das investigações. “A perícia servirá para embasar a denúncia do Ministério Público”, lembra o advogado da família, Laércio Benko. “Se houver denúncia por homicídio doloso, com intenção de matar, o inquérito será julgado pelo júri popular do Fórum de Santana. Se for homicídio culposo, sem intenção, o processo tramitará pela Justiça Militar.”

Apesar disso, nenhum promotor acompanhou a encenação do crime. “Talvez achem que esse fato não é relevante”, lamenta Benko. O advogado defende que o policial seja processado por homicídio com dolo eventual. Ou seja, Benko defende a tese de que, mesmo que não quisesse assassinar o jovem, o soldado assumiu o risco de matá-lo ao apontar-lhe a arma antes mesmo de descer do carro.

“Não é assim que se faz uma abordagem, principalmente com dois adolescentes inofensivos”, critica. “Se você está andando num carro com uma arma apontada para uma pessoa, você está assumindo o risco de matá-la. É a mesma situação de quando você bebe e dirige. Você pode não querer matar, mas você assumiu o risco de provocar um acidente fatal. A partir do momento em que você está com uma arma apontada, você assume o risco de matar.”

De acordo com os advogados, a Justiça Militar tem trabalhado lentamente. As autoridades limitaram-se a fazer oitivas com o policial e com as testemunhas do crime, e um laudo pericial da pistola utilizada pelo PM no momento do crime – uma Taurus modelo PT 247 de 40 milímetros. Ocorrida na manhã de hoje, debaixo de um sol inclemente, a reconstituição é apenas o quarto episódio da investigação.

Os policiais que fariam a segurança da encenação começaram a chegar por volta das 10h30. Antes, apenas uma viatura circulava pelos arredores da Rua Bacurizinho. A comitiva completa teria pelo menos dez viaturas, entre elas caminhonetes da Força Tática, cinco motos das Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam) e homens fortemente armados com metralhadoras e armas calibre 12. Advogados chegariam em seguida, já com o trânsito interrompido.

“Essa é uma área com muito tráfico de droga”, comenta informalmente um policial que costuma trabalhar na região, sem perder a oportunidade de externar sua opinião ao único repórter presente. “Conheço o soldado, tinha só dois anos de PM. Não acho que ele tenha atirado de propósito. Tinha muita gente olhando.”

Três peritos da Polícia Científica analisaram a encenação. Fizeram anotações, esboçaram desenhos, usaram fita métrica e tiraram muitas fotos. Vizinhos, amigos e familiares tiveram de ficar longe do teatro, atrás de uma fita plástica preta e amarela. Mesmo após insistentes pedidos à capitã que coordenava os trabalhos, aRBA também teve de se posicionar a uma distância de 50 metros.

Ainda assim, foi possível verificar que Luciano e Douglas estavam muito próximos no momento do disparo, separados por menos de dois metros. Houve duas reconstituições: uma narrada pelas testemunhas; outra, pelo policial, que se apresentou à encenação debaixo de uma máscara ninja. E ambas coincidem em que o tiro foi disparado à queima-roupa.

A balaclava que escondia o rosto de Luciano cumpriu sua função: ninguém sabia dizer se o policial mascarado era ou não era o soldado responsável por empunhar a arma que tirou a vida de Douglas. “É ele?”, perguntavam-se os vizinhos. “Sim, é ele”, uns respondiam, enquanto outros garantiam com a mesma certeza. “Claro que não.” Alguns se revoltavam: “Para matar, não usou cobriu a cara, né?”

As duas versões reconstituídas hoje também não apresentam divergências quanto ao momento do disparo: a arma foi acionada enquanto o soldado ainda estava dentro do carro. A principal diferença entre o relato das testemunhas e do policial diz respeito à porta da viatura. As testemunhas afirmam que Luciano disparou através do vidro, com a porta ligeiramente aberta.

O PM também diz que atirou pelo vidro. Mas, ao contrário das testemunhas, atesta que abriu a porta de supetão, com a ajuda da perna, e que, devido à força empregada no movimento, a porta abriu completamente, bateu e voltou, atingindo sua mão. A pistola teria disparado com o impacto, e o tiro atingiu Douglas.

“O fato de a porta ter ido e voltado, para mim, é irrelevante. O fato de o policial ter puxado ou não o gatilho é irrelevante”, avalia o advogado Lárcio Benko, que também é vereador em São Paulo pelo PHS. “O importante é que ele estava com a arma apontada para dois jovens num domingo à tarde. Ele não estava invadindo um lugar com 500 traficantes armados. Ele estava numa calçada com dois adolescentes parados.”

Os detalhes criminalísticos não pareceram despertar o interesse de Rossana Martins, de 45 anos, mãe de Douglas. Acompanhar a reconstituição do crime e ver-se tão perto do policial que tirou a vida de seu filho fez com que revivesse toda a história. “Estou com as carnes tremendo aqui de vontade de grudar no pescoço dele. Mas tive que me conter.”

Ao contrário do advogado, Rossana sim se importa com a abertura da porta da viatura. Para ela, a versão apresentada pelo soldado mascarado é uma mentira. Seu outro filho de 13 anos, que estava ao lado do irmão na hora do disparo, mas sobreviveu à abordagem, é a que lhe convence. “A parte do policial está errada. Não teve chute em porta nem nada.”

A reconstituição acabaria às 12h30. Em menos de cinco minutos, todos os policiais – inclusive o acusado e seu advogado – já haviam deixado o local. Os vizinhos começavam a retirar as faixas e cartazes. Os trabalhadores que voltavam para suas casas poderiam almoçar em paz antes de retornar ao batente. E a Rua Bacurizinho voltava a ser apenas mais uma ruela do Jardim Brasil.

Talvez não para as pessoas que durante toda a manhã vestiram uma camiseta branca com a foto de Douglas – ou Douglinhas, como era conhecido no bairro. Certamente não para Rossana, que há quase sete meses tem apenas um pensamento: “Justiça”, repete. “Justiça. Que ele fique preso para pagar o que ele fez. Ele não matou qualquer um. Matou meu filho, um menino trabalhador.”

 

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