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Mambu: um lugar que você nunca foi e o poder público esqueceu

Cansado de desculpas da prefeitura, movimento social alugou micro-ônibus para provar que é possível ter uma linha regular no local

Por Igor Carvalho

Papel colado na entrada do micro-ônibus anuncia o trajeto da linha (Foto: Igor Carvalho)
Papel colado na entrada do micro-ônibus anuncia o trajeto da linha (Fotos: Igor Carvalho)

“Vem seo Pereira, é de graça e só hoje, tá todo mundo andando na van”, gritou Maria Marinalva ao homem na beira da estrada, que, largado em sua cadeira de balanço e cercado por galinhas, nem fez menção de levantar, mas sorriu diante da empolgação coletiva que ouvia de dentro do micro-ônibus.

Assim, Maria Marinalva atravessou os 15 quilômetros da Estrada da Ponte Seca, gritando da janela do micro-ônibus por todos os vizinhos, amigos e conhecidos que lhe cruzavam o caminho. A não disfarçada alegria, estimulada por gritos empolgados de dentro do carro, provocaram toda a comunidade. “Eu nem acredito que hoje não passei a madrugada caminhando, que pude descansar, dormir um pouco mais”, comemorou a agente de saúde Fernanda Marques Balieiro.

A Estrada da Ponte Seca é maldosa, se anuncia maior depois de cada curva, obriga os que por ela passam a se vergar diante de sua sinuosidade e a odiar seu terreno arenoso e saturado de pedras. Por ela, marcham dois mil guerreiros da pequena Mambu, um distrito encrustado em Marsilac, um bairro no extremo sul de São Paulo, na fronteira com Embu Guaçu, que, sem internet, sem sinal de celular, sem luz em boa parte do tempo e sem qualquer transporte público, insiste em ser a  antipropaganda da São Paulo do progresso, que nunca dorme e da maior economia do país.

A linha 601L, que tem seus pontos finais em Marsilac e no Terminal Varginha, é o único ônibus que circula em toda a região. O ponto mais próximo de Mambu fica no km 49 da Estrada Engenheiro Marsilac, a 15 km da casa de seo Germino Neres dos Santos, de 74 anos, que duas vezes por mês precisa sair do bairro e ir até Parelheiros, passando, claro, pela infinita Estrada da Ponte Seca.

Infartado e com hipertensão, seo Germino tem que caminhar até duas horas e meia (Foto: Igor Carvalho)
Infartado e com hipertensão, seo Germino tem que caminhar até duas horas e meia

Na primeira vez que atravessa os 15 quilômetros, seo Germino vai buscar sua aposentadoria – não há agências bancárias na região. Na segunda, para fazer exames, pois é hipertenso e já sofreu um infarto. “É muito sofrido, tem vezes que preciso parar só para respirar, tentar achar a casa de alguém, para poder recuperar o ar, também sinto muitas dores nas pernas”, se queixa o aposentado, que caminha por duas horas e meia até o ponto. “Costumo sair de casa às 3h30, quando vou buscar meu dinheiro”, finaliza o idoso.

Quando seo Germino infartou, a sua companheira teve que procurar nos vizinhos um telefone fixo, já que não há sinal de celular. Conseguiu acionar o Samu. Porém, muito tempo depois, foi informada de que o Samu não conseguiu localizar seu endereço. Dessa forma, os filhos conseguiram um carro e levaram o pai ao hospital.

Na última viagem da manhã, às 10h, moradores ainda lotam o micro-ônibus (Foto: Igor Carvalho)
Na última viagem da manhã, às 10h, moradores ainda lotam o micro-ônibus

Fernanda Marques Balieiro trabalha na UBS de Mambu, a Dom Luciano Bergamin, que fica instalada a 8 quilômetros de sua casa, no meio da Estrada da Ponte Seca. “Saio de casa às 3h. Quando chove saio mais cedo ainda, o pé fica atolando na lama, fica difícil caminhar. É impossível continuar assim, é muito sofrimento”. A servidora pública conta que a UBS fica vazia em dias de chuva. “Temos que cancelar quase todas as consultas, os moradores não conseguem chegar até a unidade, tem mãe com filha cadeirante que nem em dia de sol consegue chegar na unidade, imagina chovendo”.

Isabel Cristina da Silva é diarista e mãe de Maiara da Silva, que tem 10 anos e é cadeirante. Para levar a filha na UBS, há uma condição. “Tenho que ter sorte de encontrar alguém com carro e me ofereço para pagar R$ 10. O carro tem que ser grande, para poder dobrar a cadeira de rodas da Maiara. Ela deveria vir uma vez por mês, mas não consigo trazer sempre. A pé é impossível, não tem como atravessar a estrada”. Luiz Vieira, líder comunitário, e também funcionário da Dom Luciano Bergamin, afirma que a UBS não possui um transporte próprio para buscar os pacientes mais críticos.

O isolamento fomenta o ócio dos jovens de Mambu. “Poucos terminam os estudos aqui, a maioria está desempregada e a única diversão é a televisão”, afirma Luiz Vieira, que cursa a faculdade em Santo Amaro. “Só consigo porque tenho uma moto, quando ela quebra, ou chove, falto nas aulas”. Moradores de Mambu se preocupam com o retorno dos que chegam tarde e caminham pela Estrada da Ponte Seca, não há postes de luz e a via fica escura. Mulheres já foram perseguidas no trecho. “Um homem com faca correu atrás de mim”, confirma Isabel.

A um ônibus do mundo

Moradores desceram do micro-ônibus para protestar (Foto: Igor Carvalho)
Moradores desceram do micro-ônibus para protestar 

A SPTrans pré-aprovou, em dezembro de 2013, uma linha de ônibus para atender os dois mil moradores de Mambu. Porém, ainda não sinalizou que vai cumprir o que foi prometido. As justificativas são diversas, segundo Luiz Vieira. “Já me falaram que o problema é a ponte, que é estreita demais e não oferece segurança, e que a subprefeitura de Parelheiros deve arrumar, e agora dizem que a área é reserva ambiental.”

Apesar de todas as imposições aplicadas pela SPTrans, inúmeros ônibus escolares, fornecidos pela prefeitura de São Paulo, circulam no trajeto de 15 quilômetros, buscando crianças que estudam em escolas afastadas (não há nenhuma escola em Mambu).

“Não tem sentido, como permitem que circulem os ônibus com nossas crianças, mas não permitem que um micro-ônibus atenda aos moradores até o ponto na Estrada Engenheiro Marsilac?”, pergunta Luiz.

Em resposta ao SPressoSP, a SPTrans se esquivou dos questionamentos e apenas informou que Mambu está em uma “Área de Proteção Ambiental (APA). Trata-se da APA Capivari/Monos. É, portanto, de preservação máxima. Diante disso, a SPTrans não possui autorização para a implementação de sistema de transporte público coletivo no local.” Questionada, a subprefeitura de Parelheiros, que atende o bairro de Marsilac, não respondeu sobre a manutenção da ponte nem sobre a APA, que é municipal, até o fechamento desta matéria.

Apesar das limitações impostas pela SPTrans, a Prefeitura de São Paulo oferece ônibus escolares que circulam normalmente pela região (Foto: Igor Carvalho)
Apesar das limitações impostas pela SPTrans, a Prefeitura de São Paulo oferece ônibus escolares que circulam normalmente pela região

O movimento Luta no Transporte Extremo Sul, formado em março de 2013 pelos moradores da região, resolveu provar que é possível que um ônibus circule pelo local.

No último dia 5 de abril, o movimento organizou, com apoio do Movimento Passe Livre (MPL), um bingo com os moradores, para arrecadar fundos que permitissem o aluguel de um micro-ônibus. O grupo conseguiu, entre panos, panelas, brinquedos e outros objetos, juntar R$ 200, um terço do necessário para locar o carro. Um empresário da região forneceu mais R$ 200 e restante viria de uma partilha entre moradores e o movimento Luta no Transporte Extremo Sul.

Mesmo assim, na última sexta-feira (11), às 5h30, com 40 pessoas a bordo, o micro-ônibus começou a circular pela Estrada da Ponte Seca. Os que não sabiam da novidade, eram pegos pelo caminho, os que já sabiam simulavam os pontos de parada. Em nenhuma viagem foi cobrada tarifa, o transporte foi gratuito.

Fora feitas, durante todo o dia, seis viagens. Três entre 5h30 e 10h e outras três entre 17h30 e 21h. O trecho de 15 quilômetros foi vencido pelo micro-ônibus em um tempo médio de 1h15. Na ponte, improvisada com os troncos de árvore, os passageiros tiveram que descer, por conta do risco.

No vídeo, o momento em que o ônibus é obrigado a parar e os passageiros atravessam a ponte a pé

Em todas as viagens o micro-ônibus esteve lotado, provando a necessidade da condução. Além de passageiros, transbordava a alegria de quem não precisaria expor o corpo ao limite, de quem não precisaria deixar de comer porque dormir era necessário, de quem teria tempo para contar o dia ao companheiro ou companheira, de quem poderia brincar com o filho ou filha, de quem ainda conseguiria ver a novela na televisão. Só faltou o poder público, mais um dia.

“Provamos que é possível. Provamos que basta boa vontade, que Deus nos ajude, que essas imagens cheguem para todo mundo e que possamos ter um pouco de dignidade aqui”, pedia Luiz Vieira.

Depoimento de um dos moradores, após chegar no ponto final em Mambu, próximo de sua casa:

 

 

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