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“Não queremos invadir nada, apenas nos divertir”, diz participante de “rolezinho”

Atos realizados por jovens mostram a ausência de espaços públicos e problemas de mobilidade nas periferias

Por Marcelo Hailer

Foto: Reprodução Facebook
Foto: Reprodução Facebook

Desde o final do ano passado grupos de jovens organizam os chamados “rolezinhos”, uma espécie de ocupação nos estacionamentos e outros espaços de shoppings da cidade de São Paulo. Dois chamaram a atenção por conta do grande número de participantes: Itaquera e Tatuapé, na zona leste de São Paulo. À época, houve forte repressão, em ambos os eventos.

E o cenário de apartheid que se viu em 2013, quando jovens negros foram enfileirados e expulsos dos centros de compras, voltou a se repetir neste último final de semana. No shopping Itaquera, o rolezinho foi recebido com bombas e balas de borracha da Polícia Militar. No JK Iguatemi, uma liminar proibiu a realização do evento, a entrada de jovens desacompanhados e, caso acontecesse, teria que ser paga uma multa de R$ 10 mil.

A partir destes fatos, uma série de questionamentos surgiram na imprensa e na rede. De um lado, a visão de que isso é uma resposta à ausência de espaços públicos de socialização aos jovens da periferia; na outra ponta, alguns tacharam os eventos de” vandalismo”. A reportagem do SpressoSP conversou com um jovem que participou do “rolezinho” de Osasco pra buscar entender o que os motiva.

L.X, que pediu para ter o nome e idade ocultados, contou à reportagem que o principal motivo dos atos é “fazer novas amizades, sair com amigos” e que não existe o “intuito de roubar e quebrar o patrimônio público, é apenas um passeio, só que com mais gente”, explica.

Gabriel Medina, gestor da Coordenação de Políticas para Juventude da prefeitura de São Paulo, faz uma análise que vai ao encontro do que foi colocado pelo jovem entrevistado. “É uma clara expressão da reivindicação por espaço de encontro e lazer. E não é nada estranho entender por que eles foram procurar o shopping, já que a ascensão social no Brasil nos últimos anos tem sido pautada pelo consumo. Não tem nada de estranho os jovens procurarem justamente o símbolo maior da sociedade de consumo, que é o shopping center”, analisa.

A urbanista Erminia Maricato também atribui os atos à ausência de áreas públicas de socialização na periferia, mas destaca ainda a questão de mobilidade. “É falta de espaço público ou é falta de mobilidade para esses jovens poderem ir nos parques que existem? Sem dúvida que falta muito espaço público, principalmente na periferia, lá você não tem local de encontro, de lazer, que seja público. Mas, se eles tivessem mobilidade, poderiam ter acesso aos espaços existentes”, pontua Maricato.

L.X concorda com os entrevistados e diz que hoje faltam eventos culturais, sendo que a sensação é de “abandono pelas autoridades, prefeitos e vereadores”. O jovem também afirma que há um forte preconceito com o funk que, segundo ele, é associado à marginalidade. “Dizem que o funk leva para as drogas e para o caminho do mal, mas, em qualquer estilo musical, sempre tem alguém na droga. Não é o funk , o rock , mas sim as pessoas que usam”, critica L.X.

“Não estamos invadindo nada”

Erminia Maricato diz que os “rolezinhos” colocam em xeque os valores da sociedade. “Eles estão mostrando o que é a sociedade brasileira e colocando em xeque o discurso e a legislação. De repente você proíbe os caras de entrar? Isso é a exclusão econômica, racial e social que está sendo questionada com esses ‘rolês’”, aponta a urbanista. Para ela, parte da sociedade paulistana não quer que estes jovens “saiam da senzala”. “O pessoal está entendendo que existe um discurso cínico que se faz sobre a sociedade brasileira e eles querem a prática do discurso, da legislação. A nossa legislação é fantástica, tudo é muito democrático, todos têm direito de forma equânime na lei, mas não na realidade”, observa.

Medina acredita que é preciso mais espaços públicos, porém, também é necessário fazer com que o Estado dialogue mais com essa fase da juventude, quando os desejos afetivos estão em alta. “Como a gente constitui espaços de encontro noturno pra jovens que não sejam privados? Como a gente pode pensar em lugares em que esses jovens possam fazer festa? Isso é uma coisa que parece muito distante da coisa pública, mas não deveria ser”, argumenta. “Tem uma discussão que também acho importante a ser feita que é esse processo de vivência dessas adolescências, esse início da vida afetiva, a iniciação sexual… Como o Estado pensa esses equipamentos sabendo que nessa faixa etária começam os desejos, o desejo de encontrar o outro, de namorar, e que não são discutidos na escola, não são permitidos em vários lugares, mas é uma dimensão da vida social que é fundamental e o Estado pensa pouco. Tem ainda um espaço pra uma reflexão mais profunda sobre como se dá a relação do Estado com essa juventude.”

Por fim, estes jovens temem a repressão militar? Eles querem “invadir” os shoppings, como alguns setores têm dito? “Claro que temos [medo da polícia], mas a gente não vai [ao shopping] para fazer nada de errado, então não precisamos ter medo. Não estamos invadindo nada, a gente só quer se divertir, só que vamos com mais pessoas, mas nada além disso”, finaliza o jovem participante do rolezinho.

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