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Tubarão DuLixo leva arte para as quebradas de São Paulo

Utilizando o lixo como matéria-prima em suas oficinas, Tubarão tenta humanizar a cidade  

Por Felipe Rousselet

Tubarão em uma das oficinas desenvolvidas com crianças (Foto: Reprodução / Facebook)

Atualmente, apenas 1,2% de todo resíduo sólido que é produzido na maior cidade do país é encaminhado para a reciclagem. A nova administração municipal, encabeçada pelo prefeito Fernando Haddad, promete subir este patamar para 10% nos quatros anos de mandato. Enquanto esta realidade perdura, há quem tome a iniciativa de tentar mudar o comportamento das pessoas em relação ao lixo que produzem. É o caso de Jefferson dos Santos, 38 anos, mais conhecido como Tubarão DuLixo.

Entre os restos descartados, Tubarão consegue enxergar a matéria-prima para a sua arte. Do lixo, nascem esculturas, flores e brinquedos. “As pessoas só vão olhar pro lixo quando tem tinta aqui nele. Na forma de algo que seja mais agradável para os olhos delas.”

A relação de Tubarão com o lixo e com a arte começou quando ele deixou São Paulo, após sete anos trabalhando como eletricista na construção civil, e foi esfriar a cabeça no litoral do Espírito Santo. Tubarão pegou o dinheiro que recebeu do antigo emprego e se mudou para a cidade litorânea de Nova Almeida.

“Dando rolê nas praias, comecei a ver que tinha um monte de garrafa pet, bastante lixo”, lembra. “Comecei a catar alguns e levei para dentro de casa no impulso. Perguntei para os vizinhos se passava coleta. Uma mulher falou que era só de 15 em 15 dias, que eles queimavam o lixo. Quando vi, já estava cheio de garrafa em casa e tinha que dar fim naquilo, e comecei a fazer alguns experimentos por hobby.”

Depois deste primeiro contato com a arte produzida com lixo, Tubarão fez curso de técnico ambiental e desenvolveu trabalhos em Caseara, no Tocantins, onde começou a dar oficinas em escolas, e também na cidade baiana de Caravelas, onde trabalhou com o lixo marinho. “Pensava que as crianças poderiam se apegar nessa ideia de ver o lixo virando um bonequinho. Na época era bem simples, bem inocente. Era a ideia de criar uma geração que enxergasse as coisas de outra forma.”

Após absorver tantas experiências em locais diferentes, voltou para sua cidade natal, Santos. De volta para casa, novamente trabalhou com uma atividade braçal, instalando pisos de madeira. Nesse período, teve que parar de trabalhar com o lixo. Foi quando apareceu a oportunidade de fazer uma exposição em São Paulo.

“O Tom, do Função RHK, me chamou para fazer uma exposição. Eu não tinha nada, já estava meio parado. Chamei um parceiro que tinha vontade de aprender para vir nesse evento. Chamava-se Hip Hop na Quadra.”

Alessandro Buzo, escritor, ativista e proprietário da Livraria Suburbano Convicto, o rapper Criolo e Tubarão DuLixo (Foto: Reprodução / Facebook)

Depois de idas e vindas para fazer exposições, surgiu a oportunidade de fixar residência novamente em São Paulo, em 2009. O convite partiu de Alessandro Buzo, que o chamou para dar oficinas no Espaço Suburbano Convicto do Itaim Paulista. Durante o fim de semana, Tubarão dava as oficinas, e nos dias de semana trabalhava, e ainda trabalha, na livraria do espaço (agora na unidade do Bixiga). Porém, as oficinas acabaram. Foi quando teve a chance de trabalhar como arte-educador na Fundação Casa, em parceria com a Ação Educativa.

“Não sou salvador de nada. Eu estava levando uma proposta de arte pro moleque. Se ele quiser é nóis. Vou passar o que aprendi para ele, vou ouvir o que ele quiser falar, a bagagem dele. Você não vai mudar um moleque de 16 anos, ele já viveu isso. Minha proposta era mostrar que se faz arte do lixo. Mostrar que eu também já fiquei sem trampo, sem ter pra onde ir, mas renasci disso.”

Tubarão ficou dois anos trabalhando na Fundação Casa, mas nunca deixou de fazer suas oficinas nas periferias, na maioria das vezes em parceria com coletivos ligados à cultura Hip Hop. No seu trabalho de arte com lixo, Tubarão também incluiu outros elementos, como a poesia.

“A poesia acaba sendo a parte escrita disso. A arte que eu faço tem um porquê. Eu não vou fazer uma peça se ela não tem uma mensagem. A poesia acaba sendo a mensagem no papel. Às vezes a arte acaba sendo a poesia materializada.”

Tubarão passa para frente o que aprendeu pelo Brasil transformando lixo em arte .“Na reciclagem o produto já está consumido. Tem que existir um consumo sustentável. Todo mundo fala, mas ninguém pratica. Existe uma política dos 3 R’s – Reduzir, reutilizar e reciclar. Reciclar é o último, ainda existem outros dois para você trampar em cima de uma mudança de comportamento”, explica.

Os 3 R’s (Foto: Reprodução / Facebook)

Com a cara e a coragem, Tubarão conseguiu desenvolver trabalhos na periferia de São Paulo e em outras cidades do Brasil, mudando a visão que as pessoas têm sobre o lixo. Para ele, o poder público, que tem o dever e a condição de proporcionar educação e incentivar a cultura, não se interessa por isso.

“O sistema não quer ninguém com cultura. Não tem cinema na quebrada, não tem teatro na quebrada. Como que você fala que eles não curtem. Não curte, porque não tem. Para eles não é vantagem, governo dá o café com leite e o pão com manteiga e um monte de gente vai em cima. Com o dinheiro da Copa do Mundo, da construção do Itaquerão, dava pra ajudar vários caras que tão aí apagando fogo nas quebradas. Eu prefiro deixar o mundo um lugar melhor. Um livro no lugar de uma arma, um pincel, uma lata de tinta. Mas falta muito pra cultura.”

Apesar de nunca esquecer do Marapé, bairro de Santos onde foi criado, Tubarão também considera a capital paulista como a sua cidade. Para ele, o respeito e a educação são fatores fundamentais para melhorar a convivência na maior cidade do Brasil.

“Sei que é difícil morar em São Paulo. Não é uma cidade muito humana. A gente tem que trabalhar uma base de respeito e educação. Não quero ter a pretensão de tirar o menino lá do lugar dele, quero que ele haja com respeito e enxergue no outro um ser humano igual a ele, por mais que o outro tenha defeitos. Temos que parar com essa competição que nos é imposta. Parar um pouco de olhar tanto para as máquinas e olhar mais para o coração.”

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