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Akins Kintê e a trilogia do amor

Conheça a história do paulistano de 28 anos, que deixou emprego na Santa Ifigênia, e já publicou dois livros de poesia e dirigiu três documentários sobre literatura, futebol e samba

Por Igor Carvalho

Akins entrevista Jair Rodrigues para o documentário sobre Zeca da Casa Verde (Foto: Cassimano)

Vaguei os livros, me sujei com a merda toda
Quanto mais leio, mais bravo
Consciente, meu ódio eu cravo
Ei escola, persiste no estereótipo de negro escravo?
Vaguei os livros, me sujei com a merda toda
Descobri um Quilombo, seus heróis que se foda

O autor da poesia é Fábio Monteiro Pereira, ou melhor, Akins Kintê. Ele tem apenas 28 anos, e já publicou dois livros e dirigiu três documentários. Um paulistano que teima em resistir e que acredita na preservação da memória, mas “a história que os livros da escola nunca contam.”

Akins quer dizer jovem guerreiro. Kintê é uma homenagem a Kunta Kintê, personagem central do romance “Raízes: A Saga de uma Família Americana”, escrita pelo autor norte-americano Alex Haley. O livro narra a história de um jovem que é capturado por caçadores de escravos na África, em 1767, e é enviado aos EUA, onde recebe outro nome. A trajetória de Kunta e seus descendentes é contada por seis gerações, e termina em Haley, autor do livro, que seria herdeiro direto de Kunta. A obra inspirou o poeta a também buscar suas raízes.

No coração da Divinéia, bairro da zona norte de São Paulo, há um quintal. Foi ali, próximo ao Terminal Vila Nova Cachoeirinha, que esse paulistano aprendeu a amar a periferia e sua cultutra, em especial: o samba, o futebol e a literatura. “Onde eu morava não era favela, mas era um quilombo.”

O quintal comum era o ponto de encontro para os moradores das casas que lhe cercavam, tios, tias, primos e a avó de Kintê. Ali, o contato com a música veio cedo. “Nas nossas festas no quintal tinha meu tio que é DJ, meu pai que sempre teve uma parada com composição e a maioria dos meus primos que tocam instrumento de samba.” O ambiente festivo contrastava com os bairros de classe média, onde, como diz Kintê, “as pessoas estão solitárias, aumentando seus muros, comprando seus carros e se trancando”.

Era um Dia dos Pais, quando Kintê acordou, saiu no quintal e encontrou seu tio, que se enforcara. “Ele tinha deixado a cadeia, tirou seis anos interno. O Punga [primeiro livro de poesias de Akins] eu dedico a ele, vai saber o que é a morte, vai saber o que é a prisão…” Esses temas parecem estar mais perto nas periferias de São Paulo.

“Eu vi policial dando tapa na cara do meu pai e humilhando. Minha mãe já tomou tapa na cara, também. Meu pai tomou cadeia três vezes, mas uma vez prenderam meu pai por vadiagem, mano, por estar na rua, sem fazer nada.”

Encontro com o rap e a literatura

Akins Kintê tinha tinha 15 anos, quando deixou o cabelo crescer. “Na escola riam mesmo, na minha cara, me chamavam de ridículo. As meninas nem olhavam para mim, o complexo é foda. O Malcom X falava isso: ‘O pior crime do homem branco, foi ensinar nós, negros, a ter ódio de nós mesmos’”, desabafa.

“O rap brasileiro me fez ter orgulho de ser negro”, afirma. Akins Kintê destaca o DMN, com o disco “Cada vez mais preto” (1993), e Mano Brown como marcantes em sua vida. “O Brown é o herói da nossa geração, não há como falar, hoje, de juventude negra sem falar de Racionais.”

Passada quase uma década, outro “choque”. Em 2005, Akins conhece a Cooperifa e, também, Elizandra Souza, com quem publicou, em 2007, o “Punga” (Edições Toró), livro de poesias selecionadas dos dois. Mais tarde, em 2010, Akins publicou “Incorpóreos”, de poesias eróticas.

Faltava algumas semanas para o lançamento do “Punga”, quando Akins decidiu deixar o emprego como vendedor na Rua Santa Ifigênia, em uma loja de eletrônicos, para filmar seu primeiro documentário. “Estava em uma livraria, no Tatuapé, e me olhavam de forma muito estranha, uma mulher nem atendeu o celular do meu lado, não queria tirar ele da bolsa. Chamei o atendente e comecei a perguntar de vários escritores negros, não tinha nenhum livro, nada, nadinha de literatura negra. Decidi fazer o documentário.” Assim começou a nascer “Vaguei os livros, me sujei com a merda toda.” O filme tem 25 minutos e foi exibido, inclusive, fora do país. “Tivemos que legendar em francês e inglês.”

Em seu segundo documentário, “Várzea, a bola rolada na beira do coração”, Akins trafega pelo futebol jogado por times amadores em campos de terra pelas periferias. “Nada é mais gostoso do que ficar na beira do campo tomando uma cerveja com os amigos e vendo a bola rolar”, diz o multi-torcedor dos times de Várzea. “Na [zona] Sul gosto do Vila Fundão, na Leste, do Norusca, na Oeste torço pelo Jaqueline, e na Norte, o meu querido Inajar, que é da minha quebrada.”

Depois da literatura e do futebol, veio o samba, para completar sua trilogia do amor. “Nunca vou esquecer quando ouvi pela primeira vez ‘Nada de um minuto de silêncio, vamos cantar por aí’, foi aí que pensei em fazer o documentário sobre o Zeca da Casa Verde.” A cinebiografia do sambista foi lançada no final de 2012 e é o terceiro documentário de Akins Kintê.

São Paulo para Akins Kintê

Samba do Batalhão da Vagabundagem
Sexta, 19h
Endereço: Rua Coronel Xavier de Toledo, 256 – Anhagabaú

Sarau Suburbano Convicto
Terça-feira, 19h
Rua 13 de Maio, 70 – 2º Andar -Bixiga

Quadra da Rosas de Ouro
Rua Coronel Euclides Machado, 1066 – Freguesia do Ó
Consultar programação no site: http://www.sociedaderosasdeouro.com.br/

Campo da Divinéia – Sede do Esporte Clube Inajar de Souza
Rua Vicente Jorge, travessa da Av. Inajar de Souza, em frente à Padaria Sabor de Mel.
Jogos aos sábados e domingo, consultar programação

Museu Afro
Terça a Domingo, das 10h às 17h
Av. Pedro Alvares Cabral, s/n – Parque Ibirapuera, Portão 10
Telefone: 11.3320.8900

Confira o documentário “Vaguei nos livros, me sujei com a merda toda”, de Akins (Parte 1):

Comentários

Comentários

  • Excelente, como a poesia e o brilho nos olhos do Akins Kintê !!!

  • sueide kinte

    Muita admiração pelo trabalho desse artista. Conhecer as obras dele foi um divisor de águas na minha relação com a literatura e o cinema. Seu trabalho rompe fronteiras. Vida longa a Akins Kintê!

  • Parabéns Akins, você merece todo esse reconhecimento.

  • Akis tenho muito orgulho de ser amigo! =) meus Parabéns!

  • Parabéns! Sua história de vida é uma luta para todos nós!

    • da hora mesmo Sil Kaiala a busca mesmo é por um mundo melhor pra todos nós…. tamo junto

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