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O renascimento da Praça Roosevelt e os desafios da convivência

Com a reforma e a reabertura, é preciso saber integrar os diferentes públicos em um espaço concorrido e raro no centro de São Paulo

Por Raphael Tsavkko Garcia

Ha 17 anos trabalhando na Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, o dono da Papelaria Universal, Fernando do Amaral, se viu forçado recentemente a desistir de seu negócio. Devido à alta dos aluguéis na região no entorno da praça, motivada por sua reforma e recente inauguração, mais um pequeno empresário terá de abandonar seu trabalho, para o qual dedicou imensa parte de sua vida.

Há poucos meses, a revistaria HQ Mix fechou suas portas na mesma praça, ainda durante a reforma, devido ao aumento abusivo dos aluguéis na região, ao passo que os diversos teatros e outros bares e negócios tiveram de renegociar duramente o aluguel que passariam a pagar. Fernando foi o segundo a cair e, teme-se, outros o seguirão.

Praça Roosevelt após a reforma

Apenas o teatro Parlapatões, dono do imóvel que ocupa, se salva e os demais são reféns da especulação imobiliária e da ganância dos donos dos imóveis.

Desde domingo, Fernando vende todos os seus produtos pela metade do preço, na esperança de, ao menos, conseguir reduzir seu imenso estoque e fazer um pé de meia para o futuro, já que não conseguiu nenhum outro empresário para arcar com os custos do aluguel em seu lugar frente aos lucros que teria.

Felizmente, Fernando conseguiu passar o ponto para um amigo que, provavelmente, abrirá mais um bar na rua, que dá sinais de saturamento. No local da antiga HQ Mix, abrirá em breve outro bar, já em fase de finalização das obras.

Concorrência?

Junto ao bar “Roosevelt”, que abriu há pouco mais de um ano com um caráter diferente dos demais bares, buscando um público com maior poder aquisitivo, a praça terá – caso a papelaria realmente se torne mais um – oito bares, contando com os bares do Satyros e do Parlapatões, além de dois pequenos bares no Mini Teatro e no Satyros.

O aumento da concorrência, porém, não veio acompanhado de redução nos preços, pelo contrário. Devido não só ao aumento abusivo dos aluguéis, mas também ao excesso de bares que dividem a clientela, os preços não param de subir, prejudicando negócios e a população que mora ou apenas visita e passa suas noites na região boêmia da Praça Roosevelt.

Para muitos moradores e, sem dúvida, para muitos donos de negócios, a tão esperada reforma trouxe consigo o pesadelo da falência, a alta dos aluguéis (também para apartamentos) e a incerteza sobre o futuro boêmio, mas também residencial e familiar, da área.

Insatisfação e ocupação urbana

Há, ainda, certa insatisfação por parte dos moradores com a forma pela qual muitos frequentadores usam a praça, sem qualquer respeito por quem precisa dormir ou trabalhar na área. Skatistas dividem espaço com bikers e crianças pequenas, cachorros muitas vezes correndo soltos e, por vezes, a algazarra atravessa a madrugada.

Para muitos moradores, é impossível – e seria indevido – impedir que pessoas circulem ou mesmo conversem e se divirtam na praça durante a noite e madrugada, mas acreditam que instrumentos musicais, gritaria, skates e caixas de som deveriam ser proibidas pela GCM que, no entanto, jamais atua contra quem perturba a paz do local.

Eventos como o Existe Amor em SP (#ExisteAmorEmSP), que reuniu milhares de pessoas na praça há poucos dias das eleições para prefeito, num ato de repúdio à candidatura e à campanha suja de José Serra e pelo direito ao espaço urbano, acabou por mostrar os dois lados da moeda da ocupação urbana.

De um lado, um evento bem organizado, que acabou pontualmente, evitando varar a noite, sem incidentes que valham nota e com coleta coletiva de lixo ao final, e por outro, alguns casos de desrespeito, com skatistas tentando praticar seu esporte em meio às pessoas que se aglomeravam, causando pequenos acidentes isolados, ou a ocupação do parque infantil por pessoas embriagadas e outras sentadas na grama do “cachorródromo”, onde os cães costumam defecar.

Compartilhamento

É sempre bom lembrar que, ainda durante o processo de discussão do desenho da nova praça, vários moradores pediram aos arquitetos a inclusão de áreas específicas para skates e bikes, mas o pedido foi negado sem maiores explicações. E o resultado é uma crescente insatisfação por parte de alguns moradores.

Uma moradora do edifício Icaraí que preferiu não ser identificada, reconhece o direito de todos usarem o espaço, mas lembrou que é necessário ter em mente que ali moram milhares de pessoas e que elas precisam dormir, descansar, trabalhar e que não podem ficar reféns de quem não sabe compartilhar o espaço com respeito.

Outro morador do mesmo edifício lembrou da retirada da Feira da Roosevelt, com mais de 60 anos, sem que os moradores fossem consultados, e afirmou que a prefeitura nunca ouve os moradores, não atuando contra o barulho e nem ordenando o uso do espaço.

A Praça Roosevelt busca renascer, ou melhor, continuar seu renascimento, agora com sua reabertura, mas é preciso saber integrar os diferentes públicos em um espaço concorrido, raro no centro de São Paulo, e propício para a prática de esportes, para o lazer familiar e mesmo para relaxar, desde que os diferentes grupos consigam se entender e compartilhar.

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