Home»REGIÃO»Capital»Eleitor indeciso é quem ganha com debate do SBT/UOL

Eleitor indeciso é quem ganha com debate do SBT/UOL

Desempenho seguro e esperto de Haddad desequilibra para Serra, que precisa garantir alguma mágica na reta final da campanha

Por Cezar Xavier

Todos precisam do debate, nesta reta final do segundo turno à Prefeitura de São Paulo, atormentado por boatos, mentiras e acusações. Estagnado numa altíssima rejeição, o tucano José Serra não vê outro modo de ganhar senão minando a campanha adversária com dubiedades de última hora que não permitam tempo suficiente para responder. O petista Fernando Haddad precisa conseguir, na cronometragem tensa de no máximo dois minutos, responder às granadas jogadas na última semana, com firmeza suficiente para convencer o eleitor. Convencer especialmente aquele indeciso para quem Serra mira com olhos de crocodilo sorrateiro. Até quem já decidiu seu voto e quer convencer amigos indecisos se a saúde continua como está ou muda, precisa do debate SBT/UOL para acumular bons argumentos.

Dito isto, são poucos os que vão prestar atenção a argumentos ou à tradicional guerra de números, enquanto preparam-se para o jantar. A não ser que os argumentos sejam enfáticos o suficiente para convencer, mesmo que sejam distorções, e os números sejam apresentados de modo cristalino, mesmo que sejam falsos. O resto é postura, autocontrole, firmeza, simpatia, humor, sensibilidade, desequilíbrio, gagueira, irritação, frieza. Nestes debates, estaremos vendo mais um reality show onde alguém tem que ser mais chato e alguém mais divertido. Nessa arena, o povo quer ver sangue ou uma desastrosa escorregada na banana.

Leia também:

Serra colocará Fundação Casa para atuar dentro de escolas

Tira-teima tenta mostrar quem mente em debate,mas é parcial

Serra perde feio para Haddad no debate da Band

Debate morno na Band favorece Haddad

Oscilação para a esquerda

Um debate equilibrado favoreceria o líder nas pesquisas, no caso, Fernando Haddad. Mas o debate desequilibrou a favor do candidato de oposição em vez do governista, não apenas pela alta desaprovação ao prefeito Gilberto Kassab, mas pelo modo como Serra e Haddad se posicionaram sobre os temas.

Uma estratégia exaurida por Serra é a de dizer que o adversário não respondeu sua pergunta, torcendo para que o espectador não tenha ouvido a resposta. Afinal, ele usou dos mesmos recursos que o adversário em suas respostas, desviando de temas desagradáveis ou deixando menos tempo para a resposta principal, preferindo falar de temas mais palpitantes. O truque certamente vai pesar contra Serra, quando desmascarado pelo eleitor mais atento.

Algo semelhante fez Haddad ao se aproveitar da deixa de Serra. O tucano torceu o pé ao criticar Haddad e o PT por sempre usar “o social” como retórica vazia. O salto quebrou no momento em que Serra perguntou sobre propostas para a cultura. “Queria saber qual é o seu programa, mas não me venha com essa de a questão social, isso e aquilo…” Haddad não perdeu tempo e foi certeiro: “Serra, eu sei que você não liga pra questão social. É do seu perfil desconsiderar essa questão”. Serra não podia ser mais oportuno que isso num tema que é marca do lulopetismo. Praticamente um ato falho do elitismo tucano, se não tivesse sido dito de forma tão consciente.

Enquanto Haddad aponta estatísticas ruins para os governos tucanos, sobre temas que são consensualmente desfavoráveis ao PSDB, como segurança pública, como representante da situação, Serra só pode listar “suas” incríveis realizações (que não foram capazes de resolver o problema).

Foi assim quando fizeram guerra de números sobre o aumento da criminalidade, enquanto Serra defendeu a operação delegada. Haddad, por sua vez, como em várias respostas, foi capaz de levantar uma síntese argumentativa capaz de derrubar todo o dominó listado por Serra, ao dizer que “a prefeitura não contrata o policial para fazer segurança, mas para enfrentar o comércio ambulante”. Nem precisou dizer que os policiais são contratados também para oferecer segurança para os tucanos em seus eventos públicos. Neste caso, o melhor que Serra consegue é acusar o governo federal de não combater o tráfico de drogas, solução escapista empregada para vários problemas da cidade.

Debate florido

Um tema que pareceu excessivo no debate, sempre escolhido livremente pelos candidatos, foi meio ambiente. Um tema mais anódino, simpático e secundário para o eleitor ao qual todos apelam em debates para evitar armadilhas. Houve perguntas sobre parques, sobre a limpeza da calha do rio Tietê e sobre bicicletas. Outros temas secundários e menos suscetíveis de tensão foram propostas para a cultura e para pessoas com deficiência. Só faltou falar dos direitos dos animais domésticos e teríamos um debate “gracinha” mediado por Hebe Camargo.

Mas foi com o debate sobre parques, que Haddad revelou a falta de articulação da retórica tucana com o social. De que adianta falar em número de parques como questão ambiental, se não há prioridade à moradia popular? “Se não resolver a questão da moradia, vai continuar a ter ocupação irregular em áreas de mananciais e de risco, poluindo os córregos, vai continuar tendo pouca coleta de lixo na porta do morador, que não consegue ter saneamento básico e tratamento de esgoto”, explicou o petista.

Neste ponto, foi engraçado ver Serra se debatendo contra as 3.500 moradias por ano construídas em seu governo, citadas por Haddad, insistindo em dizer que fez 28 mil em oito anos, ignorando o cálculo divisível, além de ser mais justo comparar essa estatística ano a ano, em vez da totalidade em duas gestões contra a totalidade de uma única gestão. A “pior marca registrada” foi de 28 mil moradias em oito anos, contra 22.800 de quatros anos de Marta e 36 mil de quatro anos de Erundina, ambas gestões petistas. Na mesma resposta sobre parques, Haddad ainda foi capaz de citar “esse absurdo” da taxa de inspeção veicular, tema de forte apelo na classe média.

A pergunta sobre propostas para cultura foi a oportunidade para Haddad falar das parcerias com o governo federal que os tucanos não fazem e que ele trará para a cidade. Também voltou a enfatizar o foco que terá na atenção à cultura para a periferia. Serra voltou a listar as poucas realizações de sua curta gestão na periferia, somadas aos seis anos de Kassab e aos 20 anos de tucanos no governo estadual.

Debate pedrada

Serra usou de forma estratégica o petismo na maioria de suas respostas e réplicas, preparando o terreno para o grande ataque. O modo como atacou gestões petistas, sempre associando-as à corrupção ou incompetência, era um aperitivo para o tiro de misericórdia do mensalão, que viria na primeira pergunta do segundo bloco criando o momento de maior tensão do debate. Resta saber se esse tema ainda ofende alguém, como parecem revelar os resultados eleitorais a cada eleição. Por outro lado, Haddad pareceu bem convincente no papel indignado do homem probo ofendido pelo crápula oportunista.

O mediador Carlos Nascimento apresentou o primeiro tema escolhido pelo público para o debate: a corrupção. Ao responder a pergunta do petista sobre o tema, Serra citou o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal e justificou a importância do tema:  “Porque prefeitura significa não apenas capacidade, experiência, e as coisas que fez, que a população leva em conta para cada candidato, mas significa também princípios, valores, companhia, para quem é que se trabalha, para um partido? Vão querer repetir mensalão aqui? E veja só, negócio de mensalão não é rumor não, é um julgamento histórico do Supremo Tribunal Federal começando a condenar o que era o petista número um, senhor José Dirceu.”

Na réplica, Haddad elevou o tom de voz e questionou: “Serra, o teu desrespeito chega às raias da insanidade. Trazer mensalão para cá… Do que você está falando? Você me conhece o suficiente para saber que eu tenho doze anos de vida pública, 30 anos de vida acadêmica, que tenho uma reputação ilibada, não há sequer uma suspeita, à frente do Ministério da Educação, onde eu administrei. Eu vou criar a controladoria-geral do município, acho essencial órgãos de controle para coibir o que aconteceu, por exemplo, na Secretaria da Habitação. Um funcionário nomeado pelo Serra, ao longo de cinco anos apenas, com salário de servidor público conseguiu passar escritura para o seu nome de mais de cem imóveis, é com isso que eu estou preocupado na Prefeitura de São Paulo. E não em ofender o meu adversário.”

Leve e solto, Haddad fez uma pergunta maldosa ao listar “propostas polêmicas” que deixaram o tucano com pouco tempo para se justificar de ataques pesados, em que a única resposta rápida é dizer que o petista está mentindo. “Serra, você tem defendido algumas ideias muito polêmicas, a taxa de inspeção veicular, a lei estadual que está suspensa pela Justiça, de venda de leitos de hospitais públicos e privados da cidade de São Paulo. E queria saber se você defende outra ideia polêmica, que é pedagiar as estradas?” Haja réplica para não deixar uma pergunta dessas soando perturbadora para o eleitor indeciso! “O governo do Estado não tem essa ideia polêmica, isso foram especulações, e na época da campanha o seu partido e você aproveitaram para fazer proselitismo com essa história. Deixa eu voltar um tópico antes…”, foi o que restou a Serra dizer depois dessa pedrada.

Curiosamente, nesta pergunta, Serra se mostrou completamente perdido, mais preocupado em mostrar que é um especialista em PT e gestões petistas, menos respondendo a pergunta. Fez ataques simplórios a uma suposta falta de conhecimento de Haddad sobre a cidade. Tudo para escapar da taxa, da venda de leitos e do pedágio urbano. A contestação que fez da proposta apresentada na rádio CBN, de monitoramento de crianças propensas ao crime, foi tão estapafúrdia quanto a proposta. Na melhor das hipóteses, Serra está criticando Haddad por entender mal, uma exposição péssima, que o tucano fez de uma proposta igualmente ruim.

Outra pedrada esperada, para a qual Haddad já teria vindo vacinado, diz respeito a proposta para reduzir fila de espera na saúde. “Se essa proposta exclui, como se tem falado tanto, as próprias organizações sociais, entidades parceiras da saúde que só no ano passado fizeram 17 milhões de consultas em São Paulo?” O petista aproveitou para denunciar que só quem fala disso é o adversário, espalhando rumores. Aproveitou para desfazer um boato novo de ruptura com parcerias em creches privadas. Após essa resposta sucinta e fatal, começou o ataque lembrando dos hospitais que construirá por não terem sido feitos apesar de prometidos por Serra e Kassab. “Vou me associar ao Ministério Público para evitar a privatização de 25% dos leitos de hospitais estaduais. (…) São 792 leitos a menos se essa ideia prosperar. Nós não vamos prejudicar os pobres”, completou, citando ainda o secretário de saúde de Serra como envolvido em denúncias sobre desvio de recursos para merenda escolar.

No tema do transporte público, a situação volta a ficar difícil para Serra, pois, apesar de listar novas realizações, é mais fácil se identificar com o relato de Haddad sobre trens lotados. Apesar disso, Serra tenta dialogar com os bairros pontuando obras de mobilidade urbana em cada um. Na pergunta sobre a cracolândia, mais um vez, Haddad parece ter feito a lição de casa direitinho, enquanto Serra parece estar destreinado. Haddad vai direto ao ataque, criticando a falta de articulação do Estado e da Prefeitura com o Governo Federal em seu programa “Crack: é possível vencer”. Outro tema em que a cidade tem dificuldade de acreditar que o governo fez alguma coisa inteligente.

Foi nesse ponto, que Serra reelaborou a declaração desastrosa à rádio CBN, já que não teve direito de resposta concedido pelo mediador. Além de atacar o petista por espalhar calúnia, embora ele mesmo tenha causado o furor em transmissão de rádio ao vivo, Serra enfiou de contrabando nestes dois minutos três propostas nunca mencionadas durante a campanha ou em seu programa de governo. Revelando total falta de planejamento de sua campanha, apresentou às vésperas da eleição a proposta de dobrar o tempo do bilhete único para seis horas, em contraponto ao Bilhete Único Mensal de Haddad. Também falou em criar o Bilhete Amigão, que já existe na gestão Kassab. Será uma tentativa de salvar um debate que ele já considera perdido? Só pode! Ah, sim, a terceira proposta foi de bolsa creche para mães na fila. Repito: tudo isso na pergunta sobre a limpeza da calha do Tietê. Diante disso, só restou a Haddad uma réplica totalmente perplexa.

O final do debate ainda traz surpresas. Haddad insiste em abrir espaço para Serra falar de sua política habitacional, mas o tucano volta a ignorar o tema e falar de escolas técnicas. Depois dessa, espera-se que Serra pare de repetir seu bordão de que os adversários não respondem suas perguntas.

Comentários

Comentários

Movimento dos Sem-Mídia representará contra Jornal Nacional

Ibope: Empate técnico é mantido em Campinas