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As mulheres que podem decidir a eleição em São Paulo

Por Luiz Carlos Azenha, do Viomundo

Marta e Haddad em Parelheiros na zona sul de São Paulo (Foto: Paulo Pinto)

O tucano José Serra promete urbanizar favelas, repetindo o que já teria feito no passado (espero que vocês entendam o condicional); Marta Suplicy, na propaganda de Fernando Haddad, diz que o petista vai “recuperar o tempo perdido” na construção de moradias; Lula, em nome de Haddad, diz que seu candidato tem “mais condições de garantir moradia digna” aos eleitores.

Em recente pesquisa do Datafolha, o candidato do PRB, Celso Russomanno, subiu de 29% para 34% entre mulheres, de 33% para 41% entre eleitores com ensino fundamental e de 36% para 42% entre os que ganham entre dois e cinco salários mínimos. Ele expressa a conjunção de duas esferas da vida pública intactas no imaginário popular, diante da degradação do Estado expressa no caos da vida urbana: a midiática (estar na mídia é, em si, um endosso) e a religiosa (independentemente da fé que professem, os mais fiéis são apontados como cidadãos exemplares num cotidiano dominado pelas notícias do tráfico, das drogas, da violência e da repressão policial).

Não, esta eleição municipal em São Paulo não será decidida pelos leitores da Folha, nem do Viomundo. Quem decide vive na periferia, tem uma relação com o Estado marcada pela precariedade (no transporte público, nas escolas, nos hospitais, nas delegacias e na Justiça) e depende de redes de assistência que passam longe dos governos. Nos bairros, é a rede informal de apoio dos amigos e vizinhos ou a formal, das igrejas.

Para esta faixa de eleitores, a relação com alguém que realmente defende os pobres — que alguns poderiam chamar de ‘paternalista’ — faz diferença na vida. Não há outra explicação para o sucesso da ideia do Bilhete Único Mensal nesta campanha: fala diretamente ao bolso, de forma concreta.

O sonho da casa própria, que os candidatos já identificaram como de alto potencial eleitoral, nada tem a ver com luxo. Livrar-se do aluguel significa folga orçamentária para colocar os filhos na creche ou na escola particular, comprar plano de saúde ou fazer aquela viagem.

Em várias regiões da periferia de São Paulo, mulheres chefes de família são a força motriz, costuram laços comunitários e são, assim, as formadoras de opinião.

No desespero, os tucanos optaram pela estratégia de demonizar os evangélicos, como forma de recuperar sua tradicional base conservadora de classe média. Mas não podem fazê-lo abertamente, sob o risco de perder na periferia votos conquistados na Mooca. Delegaram a tarefa a terceiros. Só falta a Regina Duarte dizendo que tem medo dos “crentes”.

Pode mesmo funcionar na classe média, sempre em busca de uma válvula de escape para expressar preconceito de classe. No caso, em relação aos que “não sabem nem escolher a religião”, são “facilmente manipuláveis” e, em última análise, “não sabem votar”. Se soubessem, votariam no Serra.

O PT desenvolveu uma estratégia que enfatiza o plano de governo e agora apresenta Marta e Dilma como fiadoras de Haddad, especialmente junto àquelas batalhadoras que carregam as famílias nas costas, muitas das quais hoje se inclinam por Russomanno.

O candidato do PRB, ao romper o bom mocismo para bater no prefeito Gilberto Kassab, explica o motivo de sua ascensão: a rejeição genérica a tudo o que está aí.

Para além das questões eleitorais, tem razão os que sugerem que o melhorismo da esquerda no poder precisa renovar seu compromisso com um Estado que garanta saúde e educação públicas e gratuitas, transporte e moradia de qualidade para todos — um compromisso que já não sabemos quantos do PT endossam com a mesma firmeza do passado e que sabemos que o PSDB nunca teve. Eu acrescentaria à lista o fortalecimento da esfera pública de comunicação.

A longo prazo, é ainda a melhor forma de enfrentar o salvacionismo milagreiro, que viceja onde o Estado é ausente ou fracassa.

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