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Manifestantes repudiam violência da GCM contra moradores de rua

Ato chamado de Deitaço reuniu cerca de 80 pessoas ocupando deitadas a Praça da Sé

Por Felipe Rousselet

Moradores de rua se juntaram ao protesto (Foto: Felipe Rousselet / SPressoSP)

Na tarde desta quinta-feira (26) aconteceu na Praça da Sé um ato contra a truculência com que os agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) tratam a população de rua de São Paulo.  O ato organizado pela companhia de teatro Autorretrato foi chamado de Deitaço.

Cerca de 80 manifestantes, todos bem trajados, chegaram por volta das 14h na Praça da Sé e deitaram-se em papelões e cobertores. Muitos moradores de rua também juntaram-se ao protesto. Desta forma, os manifestantes reivindicavam o direito dos moradores de rua de permanecerem em espaços públicos da cidade.

A motivação para o protesto surgiu dos abusos da GCM contra moradores de rua presenciados pelos membros da companhia Autorretrato durante ensaios de uma peça de rua na Praça da Sé. Um dos integrantes da companhia, o ator Márcio Castro, contou como foi a experiência de vivenciar uma abordagem da GCM com os moradores de rua.

“Estávamos ensaiando uma cena e justamente nesse dia propusemos um experimento no qual um ator, muito bem trajado, saia da estação do metrô e chamava os parceiros de cena para observar a ação. No caso, o questionamento era qual a diferença entre eles (moradores de rua) e eu (o ator). E esse ator circulava pela praça realizando diversas atividades com muita calma, bem lentamente, sem pressa nenhuma. E no momento em que o ator, que no caso era eu, estava sentado engraxando sapatos, o rapa chegou. No caso, o rapa é a GCM que expulsava os moradores de rua. Eles simplesmente vieram para tirar as pessoas do lugar onde estavam. Fazendo isso de uma forma horrorosa. Com o pretexto de garantir a segurança dos agentes de limpeza, os guardas arrancavam os pertences das pessoas com uma violência extrema. E os agentes de limpeza vestindo máscaras, coletes e luvas, como de fato estivessem mexendo no lixo, na sujeira”, contou Márcio.

O ator ainda relatou outra abordagem da GCM junto à população de rua, desta vez na Praça do Patriarca. “Foi em outro ensaio, na Praça do Patriarca, num dia muito frio e chuvoso, quando tudo estava molhado. E eles, de novo, foram lá e tiraram as pessoas dos lugares onde estavam e meteram a mangueira nos poucos lugares onde estava seco. Então, quer dizer, é um pensamento de limpeza mesmo, de liberar espaço, de tirar dos olhos da sociedade aquelas pessoas consideradas indesejáveis. É assim que a coisa trilha”, afirmou.

Outro manifestante que relatou abusos na ação da GCM contra moradores de rua foi o músico Beto Sporleder, integrante do Quarteto à Deriva, que ensaia junto com a Autorretrato. “Em um dos primeiros ensaios a gente presenciou um desses arrastões que a Guarda Civil faz aqui, que eles saem literalmente roubando os pertences dos moradores de rua. Ai agente começou a repensar a forma como estávamos fazendo o teatro de rua e também começamos a pensar numa forma de lutar contra isso. E essa manifestação é uma dessas ideias”, explicou.

Manifestantes aproveitaram para descansar, ler e conversar durante o Deitaço (Foto: Felipe Rousselet / SPressoSP)

Sporleder ainda comentou ações da gestão Gilberto Kassab junto a população de baixa renda de São Paulo, como a tentativa de proibir o sopão, o projeto Nova Luz e a ação policial na cracolândia e na Sé, e afirmou que a gestão de Kassab é contra a vida. “É uma gestão contra a vida, contra a vida da cidade. Tudo isso que eles querem eliminar é manifestação de vida. A vida pulsando. Você não higieniza o mundo, o mundo que nós temos é esse e é nele que temos que viver. Nós temos que aprender a conviver com essas pessoas (moradores de rua) e a respeitá-las porque elas são nossos iguais”, frisou.

Um dos moradores de rua presentes no ato reforçou a denúncia dos manifestantes com o seu relato pessoal. Vilson Ribeiro de Andrade, 27 anos, morador de rua desde a infância, relatou como é feita a abordagem da GCM. “A Guarda Civil quer ser polícia, ela quer atuar como a Polícia Militar. E ela não é polícia. Ela bate, chama o rapa, joga nossas coisas no chão, se você discute eles disparam o spray de pimenta. Chamam o caminhão para lavar a calçada pra gente não ter onde deitar. Eu mesmo já sofri diversas agressões da guarda e da Polícia Militar. A guarda não chega conversando, ela chega já batendo”, denunciou.

O morador de rua afirmou que não procura albergues por causa das condições destes locais e do tratamento por parte dos monitores. “Dependendo do albergue e do monitor que esta lá, você é mal tratado, te tratam feito bicho. Muitas vezes a comida é ruim, ou até está estragada, o chuveiro quente não funciona, o vaso está entupido. Ai você reclama com o monitor e ele te responde perguntando se a gente acha que albergue é hotel”, explicou.

O ato também contou com a presença de um funcionário da Prefeitura que trabalha junto aos moradores de rua em uma das nove tendas municipais que prestam assistência e servem como espaço de convivência social para estas pessoas. Wilson Felipe, que também faz parte da Pastoral de Rua e do Movimento Nacional da População de Rua, comentou a tentativa da Prefeitura de acabar com a distribuição de alimentos para moradores de rua. “Eles ainda tentam impedir quem quer ajudar o morador de rua. Tentaram acabar com o sopão e, graças a deus, não surtiu muito efeito”.

Na época em que aconteceu a tentativa de proibir o sopão, a Prefeitura convidou as entidades assistenciais a continuarem com a distribuição nas tendas municipais, onde, segundo a Prefeitura, as pessoas poderiam se alimentar com mais higiene. Wilson, que é funcionário em uma das tendas, discorda da capacidade das tendas de absorverem estas entidades.  “Não é nem um pouco viável. As tendas não são preparadas para isso. Eu não sei como as tendas são abertas. Qualquer vigilância sanitária que fosse vistoriar um dos locais embargaria. Fecham tantas casas assistenciais com mais condições de higiene e por que não fecham as tendas? Acho que existe um jogo de interesses nisso”, comentou.

O padre Júlio Lancelotti, presente no Deitaço, comentou a importância destas iniciativas. “Isso que está acontecendo hoje é muito positivo, na medida que são jovens, grupos de teatro, novos interlocutores que entram nessa ação de apropriar-se da cidade e mostram que o fascismo não é tão homogêneo assim, não é tão monolítico. Mostram que existem brechas e estas são brechas de esperança”.

Comentários

Comentários

  • Letícia

    Incrível! Parabéns aos participantes desse ato!! Kassab é um Hitler e ninguém vê isso!

    • ademar

      isto não é incrível, isto é ridículo

  • ademar

    isso é ridículo, fazer um ato deste sem realmente saber o que ocorre de verdade, ato de violência e deixar quem realmente esta em situação de risco abandonado na rua, a GCM é o único órgão da prefeitura que vai atrás destas pessoas, que oferecem ajuda, já CAPE, Samu e etc nada fazem por eles, a confusão gira em torno de bandidos que se infiltram no meio deste povo de rua, e muitas vezes para não serem identificados usam de agressões verbais, xingamentos e desrespeitam o guarda, procurem analisar os fatos verdadeiros e deixem de hipocrisia.

    • Alessandro

      Ademar, este ato foi criado após os organizadores presenciarem localmente as aberrações da CGM por várias vezes, ou seja, pessoas que passam com freqüência neste local. Já você deve estar fazendo estas suas análises de dentro do conforto de sua casa, longe da realidade e tapando os olhos para o sofrimento destes moradores de rua.

  • ademar

    outra coisa, em relação ao chamado RAPA, a GCM não pega nada de morador de rua, este artistas querem é se promover as custas de homens e mulheres que arriscam a vida todos os dias por quem não conhecem, entendam pessoas inteligentes, a guarda somente da proteção aos agentes da sub prefeitura que tem a missão de recolher a bagunça deixada pelos moradores de rua, reclamem da subprefeitura e não da GCM

  • ademar

    em relação ao sopão, analisem o caso, quem promove o chamado sopão, são ONG’s que muitas vezes só fazem é se enriquecerem as custas do dinheiro público, é muita humilhação a este povo, chegam a colocar baldinhos de sopa do lado do morador que esta dormindo cachorros se alimentam dali e quando o morador acorda toma a mesma sopa que o cachorro tomou.
    e o pior se alguém decidir fazer maldade e envenenar estas pessoas, vão culpar quem? com certeza a prefeitura que não viu isso…..quanta hipocrisia….

    • Dennis

      Caro Ademar,
      provavelmente voce nao passa fome, nao dorme com medo de ser atacado, e nao teve seus objetos pessoais, inclusive aqueles que tem apenas valor sentimental levados pela policia. E que continue assim… Seu conforto te garante esse lugar privilegiado de espectador polemico e desinformado!

  • Everton

    Caros Srs. Dennis e Alessandro,em nosso país já se estabeleceu a cultura de hipocrisia, desde a alta cúpula até os menos favorecidos, mas entendo q os Srs. não são culpados por serem manipulados pelo sistema estabelecido, pois os Srs. também são vitimas. SRs. a manifestação deveria acontecer sim, mas para que estes “moradores de rua” tenham condições de se reabilitar como cidadãos, temos que trabalhar preventivamente na raiz da problemática, desta maneira sim, os SRs. estariam protegendo-os.

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