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Libertação corinthiana: vitória e história

Por Rodrigo Vianna, do blog Escrivinhador

Não deixa de ser curioso que o principal campeonato de clubes de futebol na Europa tenha simplesmente o nome de “Copa dos Campeões”, enquanto na América do Sul o título seja mais pomposo, quase barroco: “Copa Libertadores da América”.  É como se, por aqui, ainda tivéssemos a necessidade de reafirmar nossa independência, nossa libertação.

Para o Corinthians, mais do que para qualquer outro time brasileiro, a conquista do título significou mesmo libertação. E ela só veio com maturidade.

Os corinthianos, em campo ou na arquibancada, demoraram pra entender, ao longo dos anos, que “raça” pra ganhar a Libertadores não significa sair dando pontapés a esmo nos adversários. Quem não se lembra do Geninho, numa edição passada,  gritando à beira do campo: “pega, pega”. O defensor corinthiano seguiu a instrução, “pegou” o adversário e acabou expulso. O Corinthians perdeu para o River dentro de casa.

Em Libertadores recentes, a torcida transmitia afobação para o time. Impaciente, tresloucada, imatura… O Corinthians chegou à maturidade agora. Não ficou maduro porque ganhou a Libertadores. Mas ganhou porque ficou maduro.

Foi preciso ir ao fundo do poço na segundona, virar caso de polícia, quase quebrar e ainda amargar a eliminação para o Tolima. A diretoria mostrou maturidade e frieza, quando manteve Tite apesar do vexame de 2011.

Maturidade transmitida para o grupo e para as arquibancadas. Maturidade que não tirou raça nem vibração dos jogadores, como vimos na sóbria e consistente campanha de 2012.

Três gerações corinthianas: o caminho da maturidade (foto: Helô Vianna)

Em 2007, meus dois filhos mais velhos choraram muito com a queda pra Série B. Eu estava fora do Brasil, a trabalho, no dia do rebaixamento. Meu pai levou os dois ao museu corinthiano no Parque São Jorge, e fez com que eles entendessem a grandeza de torcer por um time que não constrói sua identidade apenas com as vitórias.

Cinco anos depois, um deles – Vicente – estava no Pacaembu vendo a gloriosa vitória sobre o Boca. O outro – André – estava a meu lado, na casa dos avós, torcendo muito. Ganharam (ganhamos!) com a sabedoria dos que – ainda jovens – já sabem o que é uma dolorosa derrota (e a derrota ensina tanto quanto as vitórias;  o corinthiano sabe bem disso).

E ainda havia o caçula Francisco: esse nem sofreu com as derrotas, e aos 4 anos já é campeão da Libertadores. A mãe dele, Teresa, recém convertida, ajudou a transformá-lo num alvinegro exemplar.

Passei, claro, uma semana tensa. E uma quarta-feira esquisita. Não queria pensar no jogo. Às nove da noite, bebi meia garrafa de cachaça pra relaxar um pouco. Meu pai, o velho Geraldo, apostava numa vitória “tranquila”: 2 a 0.

O primeiro tempo foi travado, horroroso tecnicamente. Serviu, apenas, para que os argentinos perdessem o goleiro titular (contundido) e para cansar o veterano time adversário. No segundo tempo, cumpriu-se a profecia paterna. 2 a 0. Sem susto.

Emerson Sheik mostrou que brasileiro pode, sim, devolver a catimba na mesma moeda. Com inteligência, e sem esquecer de jogar bola. Fez os dois gols, com a frieza dos grandes. Mas também antológicas foram duas outras cenas: o momento em que Sheik chacoalha as mãos à frente do zagueiro argentino, como a dizer “olha como estou tremendo de medo de você”; e a mordida desferida no dedo do mesmo zagueiro.

Emerson foi brioso. Com e sem a bola. Lembrou-me o Romário da Copa de 94, que meteu gol de cabeça nos grandalhões suecos, e depois comemorou feito um Deus baixinho. Um desses que a Veja deve achar que são “brasileiros inferiores”.

Com 1 metro e 71, Emerson foi gigante. Tão gigante quanto Paulinho, Castán e o verdadeiramente gigante Cassio. O Boca não assustou muito. A mística da camisa não entrou em campo. O jogo mais difícil foi, disparado, aquele contra o Vasco da Gama. O título tomou forma naquela defesa tinhosa de Cássio, quando Diego Sousa teve a chance de abrir o placar, sozinho diante do gol. Ali, o Corinthians começou a ser campeão, diz a crônica esportiva.

Pode ser. Mas prefiro acreditar que o título começou a ser desenhado muito antes. Nas ruas do Bom Retiro, sob os lampiões que iluminaram as primeiras reuniões para se criar um “time do povo”, em 1910. Ou teria sido logo depois, com os primeiros títulos paulistas, sob o comando de Neco.

A Libertadores não viria sem o campeonato de 54,  com Cláudio, Luisinho, Baltasar e o grandioso Gilmar na meta. Não viria sem o humilhante tabu de 12 anos sem vencer o Santos de Pelé, não viria sem os 22 anos sem títulos… A Libertadores é filha do gol de Basílio em 77, e da Democracia de Sócrates, Casagrande e Vladimir nos anos 80.

Tudo isso ajudou a construir a maturidade corinthiana. Um time que pode contar com talismãs, como o Tupãzinho do título brasileiro de 90; mas que não abre mão de craques como Neto, Tevez, Rincón, Gamarra, Marcelinho, Ronaldo…

O que é mais importante: a sorte ou o talento? A fortuna ou a virtú? Um pouco de cada, claro. Mas há mais que  isso. Time nenhum, no Brasil, sabe da importância do trabalho solidário, como esse Corinthians – time nascido de operários paulistanos.

Tite compreendeu bem isso, e chegou a um meio termo: futebol solidário, sem ser burocrático; time forte e com algum talento, mas sem estrelas. Raça, sem desespero.

A Libertadores não foi importante pelo título em si. Podíamos ter perdido. Sabemos ser grandes também nas derrotas. A Libertadores foi importante como indicativo de que o centenário clube, que brotou do meio do povo, chega finalmente à maturidade.

Viva o Corinthians!

Rodrigo Vianna é jornalista, pretende voltar a ser historiador em breve, e mantém o blog “Escrevinhador”

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