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“Sistema político brasileiro é incoerente por definição”, diz cientista político

Para o professor Francisco Fonseca, da FGV-SP, apoio do PP a Fernando Haddad (PT) demonstra incoerência de um sistema partidário que leva a alianças heterogêneas

Da Redação

Erundina falou em "rever" papel como vice de Haddad após apoio do PP (Foto: Henrique Yasuda / Flickr)

O anúncio do apoio do Partido Progressista (PP), de Paulo Maluf, à candidatura de Fernando Haddad (PT), feito nesta segunda-feira (18) em reunião na casa do líder pepista que contou com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva esquentou o debate eleitoral. Antes próximo de fechar acordo com José Serra (PSDB), em costura feita pelo governador paulista Geraldo Alckmin, que tem o partido em sua base de apoio, o PP decidiu mudar de barco e aderir à campanha petista. A articulação do acordo foi feita pelo ministro das Cidades Aguinaldo Velloso Borges Ribeiro, também do PP.

A cena dos adversários históricos Lula e Maluf ao lado de Haddad gerou críticas de incoerência contra a candidatura petista e levou até mesmo a deputada federal Luíza Erundina (PSB) a declarar que poderia “rever” sua posição como vice de Haddad, anunciada na última sexta.

Para Francisco Fonseca, professor de Ciências Políticas da Fundação de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, a crítica é correta, mas incompleta. “As duas chapas são incoerentes, diria que todas elas. O PP estava quase fechando com o Serra e na última hora mudou para apoiar o Haddad. Esse caso demonstra de maneira sólida o grau de incoerência do sistema”, afirmou, em entrevista ao SPressoSP. “O sistema político brasileiro é incoerente por definição, na medida em que temos 28 partidos e desses uma parte significativa é chamada de partido de negócios, de balcão. É um jogo estrutural e aqueles que não aceitam esse jogo acabam ficando fora”, afirma.

Ele lembra, no entanto, que a linha programática de um eventual governo é dada pelos partidos majoritários na coligação, o que permite, por exemplo, ao governo federal alcançar avanços em vários setores mesmo com 13 partidos na base aliada, seguindo a linha de atuação impressa pelo PT e outros partidos progressistas. “É a tentativa de alguma coerência dentro da incoerência”, afirma. Para ele, a situação demonstra a necessidade de uma reforma no sistema político, com financiamento público de campanha e reforma no sistema eleitoral. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

SPressoSP – Como o senhor vê o resultado da pesquisa divulgada pelo Datafolha nesta segunda-feira, com crescimento de Fernando Haddad (PT) e José Serra mantendo o mesmo patamar de levantamentos anteriores?

Francisco Fonseca – É um resultado esperado. Espera-se que o candidato do PT tenha pelomenos 30% dos votos, que é o que obteve historicamente em todas as eleições desde que se tornou um partido bem estruturado. Estes 8% são valores subestimados porque grande parte da população não está atenta ao processo eleitoral. Com mais exposição, naturalmente vai ocorrer esse crescimento.
Serra, por outro lado, mostra esgotamento. Sua saída da prefeitura é bastante lembrada e vai ser mais ainda durante o período eleitoral. Parece-me que esse estancamento, se não é definitivo, é um sinal de um envelhecimento de sua campanha, menos pela idade do candidato, mas por se tornar a ausência de renovação e ter desgaste de quem participou de muitas eleições, ganhou algumas eperdeu outras importantes.

SPressoSP – A indicação da deputada Luíza Erundina como vice é positiva para Haddad?

Francisco Fonseca – Inegavelmente a ex-prefeita tem um cacife importante de coerência programática e isso confere num primeiro momento grande importância parao PT, por ter candidatos mais afinados com um programa político. Mais ainda, ela empresta muita credibilidade, todo um passado de lutas pelos mais pobres. Mesmo que não seja um nome tão significativo do ponto de vista eleitoral, anima os militantes e ajuda a reconquistar coerência programática. Pareceu uma escolha interessante até porque os próprios adversários a reconhecem como uma política séria. É um fato político importante criado na eleição até aqui.

SPressoSP – Por outro lado, houve nesta segunda o anúncio do apoio do PP de Paulo Maluf à candidatura petista. Isso não prejudica essa coerência programática de que o senhor fala?

Francisco Fonseca – Antes de tudo, o sistema político brasileiro é incoerente por definição, na medida em que temos 28 partidos e desses uma parte significativa é chamada de partido de negócios, de balcão. E eles têm um capital que é o tempo no rádio e na TV. No caso do Maluf, como no caso da aliança do PR com o Serra, o que está em jogo é isso. Num segundo momento, é a maioria na Câmara dos Vereadores. Mas neste momento pré-eleitoral, está em jogo a formação de um tempo sólido na TV para, no caso do Haddad, torna-lo conhecido, e para o Serra, se defender e atacar opositores. Nosso sistema político leva a isso. As duas chapas são incoerentes, diria que todas elas. O PP estava quase fechando com o Serra e na ultima hora mudou para apoiar o Haddad.

Esse caso demonstra de maneira sólida o grau de incoerência do sistema. Não se trata de pessoas ou personalidade especificas, mas de uma estrutura do sistema partidário que exige alianças. As duas candidaturas são incoerentes, pois estão jogando o jogo do sistema político. Maluf negociou o tempo inteiro com um e outro. O PR só fechou com o Serra porque perdeu espaço no governo federal. Kassab flertou com os dois candidatos. É um jogo estrutural e aqueles que não aceitam esse jogo acabam ficando fora. O PSOL, por exemplo, preza pela coerência e acaba não ganhando eleição. Isso demonstra a necessidade de uma reforma no sistema político, com financiamento público de campanha e reforma no sistema eleitoral. Ainda assim, e esse tem sido o discurso do candidato Haddad, o governo federal consegue avanços mesmo com uma aliança que reúne 13 ou 14 partidos. Avança em alguns pontos, mas não em outros. Maluf é uma figura eminentemente controvertida e torna-se um político que terá espaço no governo, mas minoritário. Esta diferenciação tênue, mas importante, ajuda a dar a nuance dessa incoerência com algum programa: quem tem predomínio, que será dado pelos partidos majoritários, que são progressistas. É a tentativa de alguma coerência dentro da incoerência.

SPressoSP – Depois do anúncio, Erundina colocou a possibilidade de deixar a chapa de Haddad. Isso seria um golpe muito forte na candidatura?

Francisco Fonseca – Anunciar candidato e ele retroagir cria um fato político negativo. Mas é curioso porque na sexta, quando a ex-prefeita anunciou que seria vice, a aliança com o PP já estava fechada. E até então ela, embora mostrasse desconforto, não se opôs a ponto de não aceitar. Caso se confirme essa mudança de posição, tem que observar o que ocorreu. Não me parece que para os políticos profissionais uma foto seja… O político profissional é mais frio que o eleitor, ele entende que o que está em jogo é o horário eleitoral. E a possibilidade de governar a fazer mudanças, ainda que pontuais, já que mudanças estruturais são impossíveis no sistema político brasileiro. É preciso investigar mais e saber o porquê dessas declarações de Erundina. Podem ser declarações não definitivas, podem ter o sentido de garantir mais espaço na candidatura para as teses progressistas, de esquerda.

Comentários

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  • José da Mota

    Interessante a coincidência das fotos e das manchetes da matéria de Luíza Erundina ao lado ou acima da de Delfim Neto na Carta Capital. E quem acompanhou a política brasileira na época em que Delfim Neto foi ministro da direita e hoje é um dos aliados do PT não compreende essa repulsa de Erudina, tardia por sinal, porque veio mais de vinte e quatro horas depois, repelir Paulo Maluf. Prova ela que retroage, retrógrada é, a concretização da “Esquerda Burra”. E a configuração de uma pessoa tresloucada e traidora.
    Parte 2: Que na comissão da verdade age cheia de ódio e rancor, vingativa. Invertesse o caso e lhe dessem poder absoluto sabe-se lá qual seria o tamanho da maldade de sua vingança sob o ardor do fogo de seu ódio.
    Toda a concentração de energia que pulsa em explosão nas suas decisões entre um sim e um não são as mesmas, volátil alguém definiria. Um perigo para a sociedade analisariam, pois aparentemente o que se menos levou em conta em sua decisão foi a melhoria para o povo.
    Parte 3: Uma faísca que por um tempo riscou o céu com luz e se apagou, para sempre. Com petulância de desesperada defesa a Estrela Guia com seus argumentos apagou. Lula-lá passou dos limites, disse, pelo povo. Luíza Erundina melhor do que ele moralmente se achou. Seria o mesmo que dizer.
    Parte 5: Quem és tu Lula Estrela Guia diante de apagado risco no céu que um dia pouca luz lançou? Ainda obrigado, Lula, a ouvir o que não é nada em qualquer espaço, além de escuridão. Ousar dizer que quem passou dos limites foi tú, Lula-lá, ainda estrela guia brilhante no céu do coração do povo brasileiro.
    Parte 6: E quem és tu Erundina para para falar o que quer que seja do Lula e criar-lhe problemas para a eleição de São Paulo. Dizendo inclusive que ele foi longe de mais?
    E você para onde foi? Onde esta? E se foi e chegou a algum lugar, foi por quem? Por mérito político seu? E se, o que fez para merece-lo? Quem é você como liderança para o nosso país?
    Parte 7:Foi prefeita de São Paulo nas costas de quem? De sua liderança política de nada e de ninguém como é até hoje, ou por Zé Dirceu, Lula, Suplicys e PT?
    Que arrogância é essa para se achar com o direito de desistir dizendo que foi porque o Lula foi longe nessa ao coligar-se como o partido de Paulo Maluf? E ainda querer atrapalhar Lula e PT, isso tem nome, é covardia e traição! Típico de um tresloucada.
    Parte 8: Mas estranhamente só se decidir depois de mais de 24hrs?
    Pergunte-se a si mesma, quem sou eu? O que represento para o meu país como pessoa e política? Que falta eu faço para o Brasil? Antes de arrogar-se ao que quer que seja. Por que senão a pergunta quantos Malufs valem uma Erundina que fizeram na Carta Capital pode ser respondida por você mesma, e você com toda a certeza já se deu mal.
    José da Mota.

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