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Manifestação defende o direito da mulher escolher o local do parto

Marcha pelo Parto em Casa também foi solidária ao médico Jorge Kuhn, denunciado pelo Cremerj por defender o parto domiciliar humanizado

Por Felipe Rousselet

Marcha defendeu o direito de escolha das mulheres (Foto: Felipe Rousselet / SPressoSP)

Na tarde deste domingo,  17, aconteceu em todo o país a Marcha Pelo Parto em Casa. Mães, pais e profissionais de saúde que atuam na humanização dos partos no Brasil marcharam pelo direito da mulher escolher onde dará à luz. Segundo a Polícia Militar, a marcha reuniu entre 1.000 e 1.500 pessoas em São Paulo.

O ato pediu a regulamentação do parto domiciliar humanizado por todos os setores da sociedade (governos, planos de saúde, conselhos profissionais, Secretarias e Ministério da Saúde), criticou o alto número de cesáreas realizadas no Brasil e também foi uma manifestação em solidariedade ao médico Jorge Kuhn, que foi denunciado pelo Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro) ao Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo). O médico sofreu a denúncia por defender o parto domiciliar humanizado em reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo.

A marcha realizada em São Paulo teve a concentração no Parque Mário Covas, na Avenida Paulista, e seguiu até a sede do Cremesp, onde foram colocados cartazes na fachada do edifício. A manifestação foi marcada pela presença de inúmeras crianças, na sua maioria nascidas em partos humanizados domiciliares.

Muitas crianças, nascidas em partos domiciliares, marcharam em defesa da escolha que foi feita por suas mães (Foto: Felipe Rousselet / SPressoSP)

Jorge Kuhn falou sobre a manifestação, que contou com muitas mulheres que foram suas pacientes. “Meu sentimento não poderia ser outro do que júbilo. Estou muito lisonjeado com toda essa homenagem, mas sinto também que não é uma homenagem só a mim. Na verdade, fui o estopim de um movimento que já existe há bastante tempo em São Paulo e no Brasil. Apenas estava faltando uma maior visibilidade”, disse. “Fora da grande mídia, dentro das redes sociais, o movimento já tinha essa efervescência. Bastou aquela denúncia do Cremerj contra mim que percebemos o quanto é forte esse movimento de mulheres que querem ter reconhecido o seu protagonismo nas escolhas sobre o seu parto”, afirmou o obstetra.

O médico também comentou sobre a motivação das críticas de médicos e conselhos profissionais quanto ao parto domiciliar humanizado. “Existe muito desconhecimento por falta de leitura de muitas evidências científicas que já existem e provam que o parto domiciliar é tão seguro quanto o parto  hospitalar em mulheres com gestações de baixo risco, desde que essa mulheres queiram, evidentemente, um parto domiciliar. E desde que ela também tenha a sua disposição um sistema de transporte rápido e seguro para um hospital, a poucos quilômetros da sua casa, para que ela seja atendida caso este parto esteja evoluindo de maneira inadequada.” Além da desinformação quanto ao parto domiciliar, Kuhn também acredita que interesses mercantilistas possam motivar as críticas ao procedimento. “Também existem interesses mercantilistas, comercias. O modelo de assistência ao parto no mundo inteiro, como, por exemplo, na Inglaterra, incentiva o parto domiciliar. E, no modelo estrangeiro, o parto domiciliar é feito por parteiras, não é o médico que vai até a casa da mulher. Ela está habilitada profissionalmente e legalmente para atender os partos em casa”, explicou. ” Portanto, isso mexe muito com a categoria médica. Como médico, sei disso. Quando falo que a parteira é melhor que o médico para atender partos normais, sou muito criticado pelos colegas. Mas não sou que estou falando. A OMS já diz isso há muito tempo. Parteiras são melhores que médicos para partos normais.”

Dr.Jorge Kuhn se emocionou ao ver suas pacientes o defendendo (Foto: Felipe Rousselet / SPressoSP)

Experiências da parto domiciliar

A ativista da causa do parto domiciliar humanizado e mãe de três filhos, Renata Pena Rodrigues foi paciente de Kunh no parto humanizado hospitalar das suas filhas gêmeas e teve seu terceiro filho em casa, auxiliada por uma parteira. Renata comentou a sua experiência nos dois procedimentos. “Tive um parto hospitalar respeitoso, o que é uma exceção no Brasil, onde vivemos uma realidade em que a mulher não tem respeitados seus desejos e prioridades quando vai para o hospital. Eu, como estava com uma equipe particular humanizada com o doutor Jorge Kuhn e a pediatra Ana Paula Caldas, tive minhas escolhas  e desejos respeitados.  Foi um nascimento muito bacana, mas acho que parir em casa é outra vibe, outra energia. Você está no seu espaço. No meu caso, que estava tendo a caçulinha, as mais velhas puderam assistir o parto e conheceram a irmã no exato momento em que eu também estava conhecendo. Foi muito bom.” Renata também comentou os pré-requisitos que ela precisou estar enquadrada para realizar o parto em casa. “A gravidez teve que ser super tranquila, saudável, sem nenhuma intercorrência. Fiz o pré-natal com a parteira durante toda a gravidez. Então estávamos super seguros que ela poderia nascer em casa, que não tinha nenhuma intercorrência ou problema”, explicou.

Taiane Carneiro, grávida de 30 semanas que optou por realizar o parto em casa, falou sobre a reação dos médicos do SUS (Sistema Único de Saúde) sobre sua escolha. “Quando fiquei sabendo que estava grávida, procurei direto pessoas do meio do parto humanizado, mas eu também conversei com médicos do SUS, onde fazia em paralelo o pré-natal. Eles não foram muito favoráveis e disseram que era arriscado. Mas como minha gravidez foi e ainda está sendo muito saudável, sem nenhum risco, então não teve nenhum problema na minha decisão pelo parto em casa”, afirmou.

A posição dos hospitais quanto ao parto humanizado domiciliar também não é de incentivo. “Evidentemente que hospitais não tem interesse em incentivar o parto domiciliar. Nós temos uma dificuldade muito grande quando precisamos remover uma paciente, que originalmente realizava um parto domiciliar, para um hospital. Nós não somos bem vindos. Por sorte, isso acontece em um em cada cem casos,  uma emergência. Em 10% dos casos precisamos fazer a remoção não por uma emergência, e sim, por exemplo, pela mulher solicitar uma anestesia”, explicou Jorge Kuhn.

Manifestantes questionaram os 90% de partos por cesariana realizados na rede privada (Foto: Felipe Rousselet / SPressoSP)

Segundo o médico, o alto número de cesáreas  realizadas no Brasil caracteriza uma verdadeira epidemia. “É um verdadeiro absurdo essa epidemia, praticamente invisível, com exceção destas pessoas que estão aqui. São cesáreas que em 90% dos casos são mal indicadas, com hora marcada, e atendendo a interesses do médico e dos hospitais que conseguem organizar a agenda dos seus procedimentos. Os hospitais agendam as cesáreas em horário comercial, ninguém vai fazer uma cesárea às 4h da manhã. Nesse horário, vai acontecer um parto normal, e não uma cesariana. O que acontece é que os conselhos se preocupam com os 2% dos partos domiciliares e não se preocupam com os 98% de partos hospitalares, que em 90% dos casos são realizadas cesáreas desnecessárias”, frisou.

O papel da doula

Uma pessoa importante para a realização do parto humanizado domiciliar é a doula, profissional que presta apoio emocional e físico para a gestante durante a gestação e o parto. A doula Lili Zili explicou como ocorre a atuação destas profissionais. “A doula dá toda a informação para a gestante ter um parto ativo, ela acompanha a gestação e no trabalho de parto dá o suporte emocional e físico para que a gestante fique bem e ajuda a atravessar este momento. No trabalho de parto, a doula ajuda a amenizar a dor com massagens e analgesia natural. No pós-parto, ela faz toda a orientação de amamentação e dos primeiros cuidados com o bebê.”, explicou. A doula Priscila Cavalcante afirmou que as críticas ao parto domiciliar, por parte dos conselhos de medicina, são motivadas por desinformação e por interesses dos hospitais. “Acho que eles deveriam recorrer às referências  científicas para saber que o parto em casa é saudável e natural. Para a mulher que tem uma gestação sem riscos ele é perfeitamente seguro. E depois, talvez, exista um interesse dos hospitais  para movimentarem isso para que os partos não passem a ser em casa, que a mulher não escolha e seja sempre induzida a fazer o parto em hospitais.”

Manifestantes cobraram o apoio do Cremesp ao Dr.Jorge Kuhn na denúncia enviada pelo Cremerj (Foto: Felipe Rousselet / SPressoSP)

A obstetriz Ana Cristina Duarte falou sobre o benefício de realizar o parto da forma mais natural possível de acordo com as condições da mãe e do bebê. “Os benefícios são muitos, evitamos os riscos das intervenções e respeitamos, principalmente, o tempo e o ritmo do bebê. Isso é muito importante para a sua saúde e para um nascimento mais suave e tranquilo”, explicou. A obstetriz comentou ainda a política do SUS para os partos. “A política está muito melhor do que já foi, ela está mais visível agora, mas ainda temos muito chão. Dentro de uma boa parte do SUS, as mulheres continuam sendo vítimas de violência obstétrica de vários níveis e tipos. E continuam sem poder de escolha. Uma mulher que vai ter bebê pelo SUS muitas vezes ainda não pode levar um acompanhante, não pode levar uma doula, porque se proíbe a presença das doulas no parto. A imensa maioria das maternidades do país ainda funciona na base do sorinho com ocitocina para acelerar o parto. As mulheres continuam sendo cortadas embaixo, quando não são cortadas em cima. Não existe uma política agressiva. Precisamos de uma política muito agressiva, muitas campanhas e dinheiro para mudar isso”, cobrou.

Comentários

Comentários

  • Juliana Coelho

    Mais importante do que defender o parto domiciliar, é importante que se ponha em discussão o direito de a mulher dar à luz onde escolher, seja no hospital, numa casa de parto (as casas de parto foram praticamente extintas em São Paulo), num centro de parto normal de uma maternidade, ou em casa.
    O Brasil preserva nas alturas seus índices de partos cirúrgicos, as famosas “desnecesáreas”. A OMS recomenda o máximo de 15% de partos com resolução cirúrgica, e nós estamos no patamar absurdo de cerca de 52%. 82% na rede privada (por que será???) e 37% no SUS.

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