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Esquema fraudulento operaria Virada Cultural em SP

Confira a primeira parte de uma entrevista concedida por telefone por V de Virada, que diz conhecer em detalhes um esquema fraudulento de contratação para a realização da Virada Cultural de São Paulo

Por Redação

A seguir, o leitor tem acesso à primeira parte de uma entrevista concedida por telefone por uma pessoa identificada como V de Virada, e que conheceria em detalhes um esquema fraudulento de contratação para a realização da Virada Cultural de São Paulo. A entrevista é repleta de detalhes e atinge pessoas da gestão Kassab, em especial, um assessor do secretário de Cultura Carlos Augusto Calil. A entrevista ainda tem uma segunda parte que vai ser publicada amanhã por envolver outros nomes que estão sendo contatados pela reportagem. A entrevista a seguir foi realizada pelo diretor de Redação do SPressoSP, Renato Rovai.

Vou começar esta conversa lhe identificando conforme nossa troca de e-mail por V de Virada. A primeira pergunta, V de Virada, é sobre o que a gente conversou na troca de e-mails em relação a um suposto esquema que existiria na Virada Cultural de São Paulo. Você poderia explicar pros ouvintes e leitores do SPressoSP e da Revista Fórum como isso funciona?

Virada Cultural está sob suspeita (Foto: Flickr Blog do Milton Jung)

V de Virada – Tem um esquema desde que começou a Virada [Cultural] em São Paulo, que é comandado pela mesma galera. É uma empresa que comanda, é uma empresa que é pequena, não é uma empresa grande. O que ela faz no dia a dia não condiz com a realização de um evento desse tamanho, e eles comandam esse esquema desde o início da Virada até hoje. É um esquema montado pra forjar licitação de uma forma a dar vantagem para essa empresa, para esse grupo que eles montaram para ganhar dinheiro com a Virada.

De que empresa você está falando e como é que funciona exatamente o esquema?

É a empresa que comanda esse esquema desde o início até hoje.

Qual o nome?

Entre Produções. Para participar desse esquema, a Entre Produções [montou] quase que uma quadrilha. Formaram outras empresas fantasmas para disfarçar a presença deles e o fato deles ganharem as licitações.

Você está dizendo que eles têm ganhado todas as licitações desde que a Virada Cultural começou, é isso?

Exatamente. E outras formas que eles participam que nem passa pela licitação, que vai direto, que vai de contrato direto sem licitação, sem edital, sem nada.

Contratos diretos com a Secretaria de Cultura?

Com a Secretaria de Cultura.

Mas como é que eles conseguem fazer isso? Então tem alguém na Secretaria de Cultura que facilita essas operações?

Sim. O dono da Entre, que é conhecido como Lalau, o nome dele de verdade é Ricardo, mas todo mundo conhece ele como Lalau. Ele montou esse esquema a partir da amizade dele com um funcionário da Secretaria de Cultura que se chama Zé Mauro.

Zé Mauro do quê?

Zé Mauro, acho que Gasparini ou Gnaspini, é uma coisa assim. Mas esse Zé Mauro, segundo o próprio Ricardo declara, o Lalau, ele é o chefe da Virada dentro da Prefeitura [de São Paulo]. É o cara que manda lá, que assina o cheque da Virada, são essas as palavras do Lalau. E ele tem amizade com esse cara e [eles] montaram esse esquema desde a primeiro Virada. Então, o Ricardo e o Zé Mauro, o Lalau e o Zé Mauro, se reúnem antes de sair as licitações, definem como vai ser a Virada, quantos palcos vão ter, qual vai ser a programação, quem que vai tocar nesses palcos e só depois saem os editais de licitação. É tudo combinado entre o Zé Mauro e…

É Zé Mauro Gnaspini, é isso?

É isso mesmo.

Tá. Que é o diretor de programação da Virada Cultural

É o chefe lá da Virada Cultural.

Ele trabalha ligado diretamente ao secretário Municipal de Cultura [de São Paulo], o Calil [Carlos Augusto Calil]?

Exatamente. Ele é subordinado direto ao Calil.

Ok. Então ele operaria esse esquema junto com uma pessoa cujo apelido é Lalau? E como é possível fazer isso em casos, por exemplo, de pregão eletrônico?

Então, o que acontece é o seguinte, no caso do pregão eletrônico, o que vai para as licitações, o que vai ser escrito nas licitações, os caras combinam algumas coisas. Então o Zé Mauro coloca que vai precisar de mil metros quadrados de piso, quando ele sabe, na verdade, que vai precisar de 200 metros quadrados. Aí todo mundo que participa da licitação que não tem essa, essa…

Essa informação…

Que não tem o acerto com o Zé Mauro, coloca o preço de mil metros. E aí o que tem a informação bota o preço de 200, de 300, porque ele sabe que o cara não vai fiscalizar, não vai cobrar, que não precisa, que nem precisa, às vezes não tem nem onde colocar o que está sendo pedido na licitação. E quem tem amizade e está no esquema sabe o quanto vai precisar de cada coisa de verdade. E quem não sabe coloca o preço da quantidade que está sendo pedida na licitação.

Então, ou seja, tem uma tecnologia [de corrupção] aí?

Outra forma é o seguinte, o mano tem lá 20 mil cadeiras de plástico vermelha, ninguém mais tem cadeira vermelha na cidade, só o mano tem. Aí o cara coloca lá na licitação pedindo só cadeira vermelha, porque sabe que só determinada empresa vai ter aquele item. Então essas são duas formas que os caras usam para fraudar a licitação, mesmo quando é edital [pregão] eletrônico.

Tá e você diz que há várias empresas além da Entre que participam desse esquema e pelo que eu entendi, pelos e-mail que trocamos, essas empresas são laranjas. Eu queria que você me dissesse se é isso mesmo e quais são essas empresas?

Ó, antes deixa eu te explicar uma outra forma como os caras fazem para estar presente, pra fazer a Virada, pra produzir a Virada. E aí por isso que eles começaram a abrir empresas novas, entendeu? Tem parte que precisa de licitação, que é o caso, por exemplo, da estrutura, banheiro, palco, piso, gradeamento, de estrutura que o cara monta na Virada. Se você olhar na cidade já está espalhado, um monte de estrutura dessas. Outra coisa, outra forma que os caras fazem é porque assim, o artista não passa por licitação, você não tem necessidade de fazer licitação para fazer o show do artista, não sei por qual motivo, o órgão público não pede licitação para contratar artista. Então, o que os caras fazem, o Zé Mauro e o Lalau, eu quero contratar, quero que a Virada esse ano tenha tal artista, então ela vai lá e se acerta com o empresário desse artista.

O Lalau é o dono da Entre, né? Qual é nome dele mesmo, só para não…

Ricardo. Ricardo de Paula. Aí, ele se acerta com o empresário do artista. Ele se acertou com o empresário e, às vezes, o artista cobra 50 e ele coloca lá que é 100. E a prefeitura paga. E essa daí não passa por licitação. Não tem outro artista que vem e fala “não eu faço por menos ou faço por mais”. Os caras já estão certo com aquilo lá. Não tem artista para falar vai ser eu ou vai ser aquele. O Zé Mauro determina qual vai ser. O Ricardo se acerta e quando sai a programação o esquema já está todo montado.

Só para traduzir pro nosso ouvinte, pro nosso leitor do SPressoSP e da Fórum… Ou seja, a programação sai antes para a Entre Produções, a Entre Produções já está sabendo e contata os produtores e empresários de artistas, combina o preço antecipadamente e quando é anunciada a licitação, estes artistas já têm uma carta de exclusividade com esses empresários que estão acertados com a Entre, é isso que você está me dizendo?

Muitas vezes eles têm contrato já assinado, tem tudo pronto antes mesmo de sair a programação. Quando sai a programação lá no site, já está tudo acertado com os caras.

Vamos pros nomes das empresas que você diz, que estão ou fazem parte desse esquema.

A própria Entre Produções, já são na verdade duas empresas, que uma é Entre Produções e a outra é Entre Montagens, as duas respondem pelo mesmo nome de Entre, mas têm CNPJs diferentes. Além dessas empresas, [as outras] que participam do esquema de licitação são: a Esfera Eventos, a Fazi Cine Vídeo, Força Maior, Ictus, Ideia Musical, Solasi Produção.

Eu te pediria para repetir o nome das empresas que teriam relação ou que seriam laranjas da Entre Produções?

A Entre Produções, a Entre Montagens, a Transcasa Eventos, Lumina, Brava Produções, Solasi, Ictus, Esfera Eventos, Visual Entretenimento, Brunilu, WilWill, LR Eventos, Força Maior, Fazi, WK Produções, JL Cine… Eu acho que só essas.

Tá, eu vou começar perguntado da WilWill, porque num dos e-mails que você me enviou, num dos primeiros e-mails, você falava da WilWill e fomos buscar informações a respeito dessa empresa…

As principais operadoras do esquema, além das duas Entre, são a LR Eventos e a WilWill. São as que eles mais usam no esquema. A WilWill é a empresa mais suja que tem em todo o esquema porque além de usar para fazer essa coisa da Virada, eles usam para outras coisas também. Eles vendem nota, fazem esquema com outras empresas, todo o lixo da Entre vai pro caminhão da WilWill.

E como é que você sabe que a WilWill e a Entre têm relação?

Porque quando você pede uma nota, quer o contrato da WilWill, você liga lá na Entre pra pedir. Você quer o telefone, liga na WilWill, toca lá na Entre. Aliás, esse é o esquema de todas essas empresas. Se ligar no telefone delas vai tocar lá na Entre, algumas delas têm até o mesmo telefone. Todos instalados na sede da Entre. Aliás, se você ligar lá na Entre eles nem falam nada, eles falam alô, que é por medo de você estar ligando na Brunilu e ouvir Entre do outro lado. Nem na Entre eles falam o nome. Então todos esses telefones estão na Entre. Quando você quer nota de qualquer uma dessas empresas, ou precisa de documentação dessa empresas, é um funcionário da Entre que te dá.

(O repórter Mário Henrique de Oliveira ligou para o número da WilWill na manhã de hoje e o funcionário que atendeu, conforme afirmou V de Virada, falou alô e só depois do repórter perguntar sobre a WilWill que ele disse se tratar da empresa. O telefone da WilWill seria o mesmo da Brunilu, segundo V de Virada. O repórter Felipe Rousselet ligou para o mesmo telefone, que foi atendido com um alô novamente. Ele perguntou se o número era da Brunilu e a atendente respondeu que não. Felipe perguntou, então, se se tratava de uma empresa de produção cultural, ao que a atendente novamente respondeu que não. Ou seja, minutos antes, o atendente anterior, no mesmo número, havia dito que aquele era o telefone da WilWill e que quem respondia pela empresa era uma pessoa de nome Tatiana.)

Ou seja, os funcionários da Entre é que fazem, administram todas as contas dessas empresas?

Todas lá. Conta de pagamento, tudo. Algumas dessas empresas existem de verdade, fazem outras coisas menores, mas tudo ligado à Entre. Mas a grande maioria dessas empresas não existe além da Virada. Se você for ver o que eles fazem durante o ano, não faz mais nada, entendeu?

E esse assessor do Calil, o Zé Mauro, sabe disso?

O Zé Mauro sabe e ajudou a montar esse esquema, porque era uma preocupação do Zé Mauro de que algum dia alguém ficasse sabendo, nas primeiras Viradas, ou na primeira Virada, não tinha esse tanto de empresa. E aí, por sugestão do Zé Mauro, o Lalau foi abrindo outras empresas para compor o esquema. Os dois foram acertando isso. Não tem nada que um faça sem combinação com o outro.

Confira o áudio desta entrevista abaixo:

Áudio entrevista_PARTE1

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