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Desabrigados do Pinheirinho enfrentam truculência e futuro incerto

No segundo dia da operação militar que expulsou milhares de famílias da ocupação, revolta com violência e muito desencontro nas informações deixam moradores desolados

Por Igor Carvalho, de São José dos Campos

A tranquila cidade de São José dos Campos se tornou um cenário de guerra, desde domingo (22), quando a Polícia Militar invadiu o Pinheirinho, comunidade estabelecida há 8 anos em terras da massa falida do investidor Naji Nahas, e removeu aproximadamente 9,3 mil pessoas que vivem lá. A ação é contestada desde o princípio, primeiro por um desentendimento entre a Justiça Estadual, que determinou a remoção, e a Justiça Federal, que havia suspendido a ordem, prevaleceu a primeira e às 6 horas da manhã a operação começou. O segundo aspecto questionado é a truculência da Polícia Militar contra os moradores.

As marcas da ação policial estão na pele (Foto: Igor Carvalho)

Nas dependências da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro, pode-se ouvir em meio ao choro de crianças muitos depoimentos revoltados de pessoas que anseiam por relatar suas experiências no dia anterior. Janaína Aparecida, moradora removida, era uma das mais exaltadas.  “Eu vi pessoas lá dentro serem agredidas, com cacetetes e spray de pimenta na cara. Se o prefeito quer pegar aquela bosta de terreno, ele pode pegar, mas olha o tanto de gente que tem aqui, dormindo no chão”, explicou ela, para em seguida atacar o prefeito Eduardo Cury (PSDB). “Teve muita gente que gastou ali dentro, pra levantar suas casas, isso é desumano. Esse prefeito é nazista, ele odeia pobre.”

Antonio Donizete Ferreira, que atua conjuntamente com outros cinco advogados na defesa dos moradores, também foi vitimado na operação. “Tomei quatro tiros de borracha em três momentos diferentes. Um na perna e um na virilha e dois nas costas. Quando eu fui acompanhar uma oficial de justiça, eles abriram fogo. Eu gritei que era advogado e estava com o oficial, eles me pediram para sair andando, quando virei de costas, tomei um tiro, pelas costas.”

O coordenador do Acampamento da Operação Pinheirinho, Valdir Martins, conhecido como Marrom, estava na área, e também narra o que viu na ação de remoção. “Havia um acordo entre o governo e a justiça, uma tolerância de 15 dias. Nós, então, desarmamos o acampamento e nos preparamos para uma festa que seria no domingo, já que o Suplicy (senador) veio aqui e nos garantiu”, porém no meio da madrugada os moradores foram surpreendidos. “Às 5h da manhã começou a desocupação. Eles chegaram com 1,8 mil homens, cavalaria e tropa de choque, dando tiro de borracha e usando arma letal também, jogando muita bomba dos helicópteros. Foi uma tremenda covardia, uma violência brutal. Pra você ter uma ideia, nós montamos uma área só para crianças no acampamento, levamos ela para lá, a polícia jogou bomba lá dentro.”

Reginaldo, morador da região, contou que foi agredido enquanto estava com a filha de um mês de vida no colo. “Estou com o ombro trincado, foi o Choque. Não respeitaram nem crianças, entraram disparando tiro, quase acertaram minha filha que estava no meu colo.”

A reportagem da Fórum presenciou um dos momentos de maior tensão na manhã desta segunda (23). Um carroceiro, que passava em frente a igreja onde estão abrigados os moradores, foi abordado por 3 viaturas da Polícia Militar. Sem que o rapaz oferecesse resistência, sem que ele ofendesse os policiais ou os ameaçasse, foi alvejado por dois tiros de borracha nas costas, enquanto caminhava para longe dos policiais.  Em espaços curtos de minutos, é possível ver viaturas correndo em disparada pelas vazias ruas do bairro, com armas imponentes à mostra. Qualquer grupo é dissolvido e ameaçado.  Pelas vias há muitos carros e material queimado, poucas pessoas caminham e não há ônibus trafegando pela região, o que dificulta a chegada até o local.

Futuro incerto

Amontoados na igreja e em outros pontos da região, os moradores ainda não sabem para onde irão e nem como devem proceder. Na área de triagem, um grande barracão montado pela prefeitura, os moradores seguem sendo cadastrados. O advogado Donizete acredita que o caminho seja o retorno dessas famílias para o local que moravam. Essa passou a ser a principal reivindicação do movimento. “Queremos que o Governo Federal desaproprie a área. Tire do Naji Nahas e entregue para as 9 mil pessoas, é um absurdo prejudicar tanta gente e deixar isso para um criminoso do colarinho branco”, defendeu. A providência mais imediata deve ser a busca por bolsa moradia para os desalojados, segundo o advogado.

Dona Alzira, 70 anos, morava sozinha em um barraco no Pinheirinho, sentada nas escadas da igreja ela explica que suas coisas estão todas lá: “Só trouxe umas roupinhas. Estou esperando as soluções, disseram que vai ter um caminhão para levar a gente, eu vou para casa de parentes em Jacareí”. Ao contrário de Dona Alzira que tem uma família, muitos não contam com um lar e aguardam as providências do poder público.

Padre Célio, vigário paroquial da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, condenou a ação. “Primeiro estamos indignados com a forma como os moradores foram abordados, todo o aparato policial não está sendo de acordo com o que foi prometido. O povo está disponível para a paz, para o diálogo e depois certamente para pagar suas contas no terreno, de água, luz e gás. A igreja vai continuar acolhendo esses injustiçados. O espaço está aberto para a população e eles podem nos procurar”.

Na hora do almoço, por volta das 13h, foi servido pão com manteiga e achocolatado aos moradores na igreja. Conforme informações passadas pelo padre e as lideranças do movimento, estão abrigadas, na igreja, aproximadamente 2 mil pessoas. Durante a noite eles dormiram no estacionamento, no gramado e dentro da igreja, dando prioridade para o interior para mulheres e crianças.

Mortos e Feridos

Embora muitos moradores relatem casos de morte, não há confirmação. A Prefeitura de São José dos Campos ainda não se manifestou para confirmar mortos ou feridos.  Marrom afirma que “um rapaz do Pinheiro está paraplégico, tomou três tiros de borracha pelas costas, todos pegaram na coluna cervical, o menino não vai mais andar”.  Para o Capitão Antero, responsável pela comunicação no local, “não há feridos com resultado de morte. Não há feridos graves em decorrência da operação da Polícia Militar”.

De acordo com dados oficiais divulgados pelo Capitão, durante a reintegração, 22 pessoas foram presas, foram apreendidos 110 invólucros de maconha, 338 pinos de cocaína, 2 armas e 1 veículo roubado foi recuperado.

 

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